(contribuições para o espetáculo RIZOMA, do coreógrafo Renato Vieira)
- 1 -
Eu quero beijos
e a incerteza de um futuro.
O que está por vir, há
– e isso basta.
Do tremor houve as quedas,
as quebras, os cacos.
E com eles, os cortes.
E as colagens, as curas.
Mosaicos do que fomos,
lembranças dançando na memória.
Assim somos: rizomas,
em fragmentos sendo,
dilacerados
na crueza da paixão.
Nossa vida é esta eterna sinopse.
Quero te escrever em mim,
te emaranhar no meu destino.
O amor é isto: um início sem fim.
Um descaminho.
Aqui nos achamos e nos perderemos.
- 2 -
Meu corpo é território.
Percorro ágil o que é fugaz
mas corre dentro de mim,
vigor que pulsa na entranha,
crueza, tensão, repulsa.
O mapa da pele.
Morde agora a minha carne
e faz chover em mim.
Percebe o arrepio que anuncia
no poro, um precipício se desfaz.
Geografia do corpo.
Esquece o músculo.
A minha música vem do osso
e assim eu danço com meu sacro.
O que retumba é ancestral,
não é a derme em cicatriz
que aflora em fibras falhas,
mas o que vem de mim é fóssil,
é animal,
sou minha crosta, minha raiz.
-3-
Preciso de um vocabulário que compreenda
um encontro aguardado (e um inesperado)
o estar em cima de um palco...
Vocabulário universal do sorriso, da respiração profunda,
do espasmo, do orgasmo, do aplauso, do grito,
da gratidão, do abandono...
Algum que sussurre, ao invés de falar,
mas que diga, ao invés de omitir,
Um que tenha corrente sanguínea,
que pulse, lateje;
que escute, acima de tudo. Um vivo.
Um uivo
silencioso.
Que tenha olhos de olhar e de dizer,
e que seja sucinto e sábio, ousado.
Signo.
Sopro.
Vocabulário de imagens, de sons,
não só palavras.
Música.
Vocabulário que cante e conte.
Encantamento.
Dança.
Vôo.
Vazio.
Chhhh...
-4-
Tento.
Por tanto tempo com tantos segui,
sonhando sempre sonhando.
Mas há o tempo em que sigo só,
num desassossego.
Nenhuma mão suja
pra me acompanhar.
Carrego esse riso travado,
esse choro contido.
E a certeza ridícula
que seria contigo
o meu seguir.
Sigo sozinho.
- 5 -
Há um mistério bonito
em ser o que sou
e não saber o que sou.
Tudo que vivo, tudo que ouço, tudo que vejo
é um ir e vir de coisas, seres, experiências,
é movimento.
Ser não é ser, mas estar
sendo, ser
estando.
Ser é estar: to be.
O verbo em mutação conjuga a liberdade
de expressão.
Eu não pedi a pureza plácida
digna dos deuses.
Eu me fiz.
Eu me faço.
Sou fatia de mim mesmo.
Eu sou o que sou
e sou o que já fui,
e sou ainda o que serei.
Meu tempo passa e eu contemplo;
meu templo é oco e eu, completo.
-6 -
Purgatório de palavras
Padeço.
O mundo lógico impõe seu preço: palavras.
Quantas vezes não morremos feridos por elas?
Sílabas tônicas marcando o ritmo de nossos passos,
cartas marcadas num jogo de métrica. Verso,
agora verso o teu inverso, manejo
a tática de reverter-te, tateio
por entre as farpas paroxítonas, reviro
arames fortes com voltas várias, padeço
nas quatro linhas do mesmo cárcere. Seu servo
eu sou. Escravo.
Escavo
uma saída com a mão
direita, motor de idéias articuladas,
grafando um túnel na escuridão do caos;
e quanto mais penetro, mais me perco:
o profundo é vão.
Palavras:
vocábulos lavrados no palato do inferno,
vibratos vacilantes na garganta do diabo,
magma purgando das entranhas da ideia,
chagas de quem chora a incomunicabilidade.
- 7 -
De você eu tenho algo que ninguém me tira:
lembranças.
Violento o espaço do seu ser e sou
contigo.
Agora, dentro de mim você é
e será lembrança.
A memória não flui;
só o amor.
- 8 -
Descobri alegria.
Alívio por saber que havia,
oculta que fosse.
Do fosso da alma uma brecha
improvável rasgou
e de lá
da lama imunda
o mundo se mostrou outro.
Belo que seja.
E, sujas, as mãos escavaram pedras
negras de limo
– as unhas rotas como cascos.
A nesga de luz invade a treva,
em desvantagem a vence.
E vê-se a vida com os olhos
de retinas virgens: o verde,
o azul primário e o profundo,
a terra.
E o ar rebenta fresco no peito.
Respira-se!
Véus já não há. Vejo. Ouço. Sinto.
Certezas não tenho.
Sincero comigo digo:
“Espera, confia.
Ser apressado dissipa
essa brisa pueril.”
Difícil arte esta: crer
apesar das lembranças.
Mas, alegre por enquanto,
aguardo o tempo que for
pela boca em flor
desabrochando um beijo.
O teu.
- 9 -
Não me venha com jogos...
O amor é Eros, não Áries
é Vênus, não Marte.
O amor é servo, não mártir.
Aqui leões matam cervos
e devoram sem dó.
Porque se oferecer
em sacrifício
é não sofrer.
E só.
- 10 -
Desisto, então, e te deixo.
Sem despedidas,
sem último beijo.
O ar imóvel e abafado prediz
a chuva que virá.
Temporal.
E ruas inundarão, árvores vão cair,
a cidade será caos com o dilúvio.
Pessoas vão morrer (ou se salvar por um triz).
Mas não eu,
nem você.
Nem ninguém: lágrimas não matam.
As coisas vão mesmo esfriar, esvanecer
e com o tempo serão lembranças, só.
Um tempo de nos evitarmos.
Um tempo para ouvir o apoio de amigos.
Um tempo de nos esbarrarmos na rua
– tempo de formalidades, aquele sem olhares cruzados,
sem toques no braço do outro, sem sorrisos charmosos,
sem abraços apertados.
Em outros tempos, passamos por lá
de mãos dadas, sonhando.
O suspiro se foi e agora é o ar abafado
nos fazendo suar frio num calor desses.
Logo o tempo vira e a chuva virá,
intensa mas sem ira.
Sem pena irá lavar a mesma rua de água,
depois lama
e folhas e lixo e fezes.
E o que um dia sentimos jazerá
soterrado sob os pés
de mil homens e mulheres.
- 11 -
Quantas amarras
vão me impedir de ser seu?
Diz o teu sim
com a boca mais doce que beijei.
Vem comigo num abraço
cavalgar o lugar algum dos sonhos.
E dissipa a bruma da incompreensão
que nos divide da delícia oculta
do outro.
Agora fecha os olhos e conta.
Não há de ser nada, não há
ninguém contra o seu já.
Não põe na história esse fim.
Mil olhos nos veem, mas não sabem
o que se passa sob a pele do óbvio.
Vem comigo ser feliz,
lavar os dias com o frescor de estar vivo.
A vida, antes de você, apenas passava.
Hoje, ávida, floresce em meio às horas,
contente e incontida em si.
Vem tornar macio o correr do tempo:
mel e pétalas, a cútis do ócio,
derme que escorre
por entre os ossos do eterno.
Cio suave, ânsia de ser.
Vem, derrama esse ópio, essa alegria,
esse dopar-se sem torpor,
esse algo, esse tudo, esse amor.
Transborda e vem comigo
porque eu te amo,
te amo como ninguém.
- 12 -
(agradecimento aos bailarinos)
Soraya:
Sua beleza forte persiste
na retina de quem, pasmo,
assiste
tanta curva e precisão.
Em suma: linda,
tão linda, que te vejo
(ainda).
Fabiana:
Uma leveza que veio e se plasmou
altiva, no espaço.
De onde surge?!
Não se sabe: ela vem,
pintando-se em dança
por ela mesma, plena.
Élan e elegância.
Se as orquídeas fossem carnívoras,
talvez fossem mais belas.
Quem seduzido ousaria
tocar a pétala macia,
e deixar ser devorado?
A flor singela e sanguínea
tem seiva e corpo instigante:
Lavínia.
En medio del crepitar del fuego
celebra un gitano.
No hay ni ayer ni mañana
sólo la noche,
la luna
y aquel fuego sin fin.
Mis ojos centellean
mientras baila Joaquim.
Do templo em Delfos, na Grécia Antiga, ouviu-se o oráculo:
“Um deus tomou não pedra, mas carne,
para esculpir um homem;
em seu torso e músculos torneados
a escrita da luz não brilha, assombra.
E nesse corpo-mármore, um sopro habita,
o espaço move, o tempo para e a vida grita.”
Pela primeira vez, Apolo olhara no espelho.
O CADERNO DE RASCUNHOS
de Rodrigo Gerstner
20.6.11
9.3.11
POESIA BRUTA
Quando há tempo de pensar na vida
é que a gente vive.
Vejo a Natureza sendo
e dela participo,
entendo intimamente
o mar se engastando no granito
– estas pedras que já foram,
com a África, a Pangeia.
E percebo que as ilhas são ligadas
pelo mais profundo vínculo
talássico
abissal.
E que o vento nos perspassa
do sopro que move as velas,
os moinhos, as correntes,
a História – até.
Vento do onde, do quando,
do além.
Vento que erode e areja,
que derruba e alça,
que esculpe e arruína.
Medo complacente do sublime.
Esta vida em estado bruto
sem o refinamento inútil,
nem a lapidação do efêmero.
Vida antiquíssima, ancestral,
repetição imemorial do ser-estar
e onde estamos encrustrados,
jazida inesgotável de mobilidades.
Pensar, então, sentir.
Ser, assim, amar.
No tempo de pensar a vida,
redescobre-se o amor latente.
é que a gente vive.
Vejo a Natureza sendo
e dela participo,
entendo intimamente
o mar se engastando no granito
– estas pedras que já foram,
com a África, a Pangeia.
E percebo que as ilhas são ligadas
pelo mais profundo vínculo
talássico
abissal.
E que o vento nos perspassa
do sopro que move as velas,
os moinhos, as correntes,
a História – até.
Vento do onde, do quando,
do além.
Vento que erode e areja,
que derruba e alça,
que esculpe e arruína.
Medo complacente do sublime.
Esta vida em estado bruto
sem o refinamento inútil,
nem a lapidação do efêmero.
Vida antiquíssima, ancestral,
repetição imemorial do ser-estar
e onde estamos encrustrados,
jazida inesgotável de mobilidades.
Pensar, então, sentir.
Ser, assim, amar.
No tempo de pensar a vida,
redescobre-se o amor latente.
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18.2.10
DA TRISTEZA
A tristeza é esse esvaziamento
bem dentro da gente,
um ruir que abre espaço
pras coisas internas.
E o olhar contempla,
intentando assimilá-las
e completar a gente
do que vem de fora.
Não quero ser
um poeta da tristeza,
mas entendê-la,
revelá-la bela.
Porque quando se está triste
um senso novo se abre
e percebe
a oclusão do existir,
a fugacidade intermitente,
as cores desbotadas,
ancestrais,
de que tudo é feito.
bem dentro da gente,
um ruir que abre espaço
pras coisas internas.
E o olhar contempla,
intentando assimilá-las
e completar a gente
do que vem de fora.
Não quero ser
um poeta da tristeza,
mas entendê-la,
revelá-la bela.
Porque quando se está triste
um senso novo se abre
e percebe
a oclusão do existir,
a fugacidade intermitente,
as cores desbotadas,
ancestrais,
de que tudo é feito.
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A GURU
A guru profere
uma palavra,
uma sentença
ela vaticina.
De sua boca sai o destino
de homens e mulheres.
A guru é louca
e a loucura fere.
Mulher loquaz
sem moderação de palavras.
A guru fala muito,
não sabe ser guru.
Condena o logos,
mas é dele escrava.
Pobre guru,
mãe da mediocridade,
rainha solitária.
Usa seu dom
para conceber
e dar à luz
ideias estéreis.
Desperdiça-se.
Sim, a luz é necessária!
É a luz que revela,
não ela.
Quem só olha para a luz,
cega a si próprio
e já não vê,
alucina.
O que a guru diz
não vem da retina
nem do coração,
mas da mente.
É imaginação.
Nenhuma revelação,
nenhum espelho possível
para a guru.
O mundo não comporta mais
uma verdade.
O Homem não suporta mais
tantas certezas.
A guru não percebe o evidente:
a verdade é um aspecto.
E rejeita a filosofia – pena.
Não a rejeitasse saberia a verdade
como um espectro socrático.
Que a guru leia isso como quiser.
A guru, aliás, gosta de leituras,
mas não lê um livro sequer.
Quer ser guru. E só.
Sinto muito, gosto da guru,
mas vou deixá-la.
De agora em diante,
minha mestra é a Ação.
uma palavra,
uma sentença
ela vaticina.
De sua boca sai o destino
de homens e mulheres.
A guru é louca
e a loucura fere.
Mulher loquaz
sem moderação de palavras.
A guru fala muito,
não sabe ser guru.
Condena o logos,
mas é dele escrava.
Pobre guru,
mãe da mediocridade,
rainha solitária.
Usa seu dom
para conceber
e dar à luz
ideias estéreis.
Desperdiça-se.
Sim, a luz é necessária!
É a luz que revela,
não ela.
Quem só olha para a luz,
cega a si próprio
e já não vê,
alucina.
O que a guru diz
não vem da retina
nem do coração,
mas da mente.
É imaginação.
Nenhuma revelação,
nenhum espelho possível
para a guru.
O mundo não comporta mais
uma verdade.
O Homem não suporta mais
tantas certezas.
A guru não percebe o evidente:
a verdade é um aspecto.
E rejeita a filosofia – pena.
Não a rejeitasse saberia a verdade
como um espectro socrático.
Que a guru leia isso como quiser.
A guru, aliás, gosta de leituras,
mas não lê um livro sequer.
Quer ser guru. E só.
Sinto muito, gosto da guru,
mas vou deixá-la.
De agora em diante,
minha mestra é a Ação.
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ESCONJURO
De lápis-lazúli
é a tua lápide,
ornamentando
o teu destempero.
Teu ócio jaz
com a vaidade
que corrói as horas
com pompa vã.
Nenhum afeto
adere à superfície
porosa
do teu ego.
Retira a tropa
da arrogância
do santo campo
de batalha.
Regride à tua
infelicidade,
regressa ao nada
que és. Recua!
Encontra a verdade
que paira sobre ti:
Repara a morte
que te sorri.
Se tudo passa,
não há quem possa
salvar-te, pois.
Repousa em paz.
é a tua lápide,
ornamentando
o teu destempero.
Teu ócio jaz
com a vaidade
que corrói as horas
com pompa vã.
Nenhum afeto
adere à superfície
porosa
do teu ego.
Retira a tropa
da arrogância
do santo campo
de batalha.
Regride à tua
infelicidade,
regressa ao nada
que és. Recua!
Encontra a verdade
que paira sobre ti:
Repara a morte
que te sorri.
Se tudo passa,
não há quem possa
salvar-te, pois.
Repousa em paz.
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14.9.09
LEMBRANÇA
Não use a memória
para lembrar uma história
que mal começou
(ou começou mal)
Tenha na lembrança
sempre bem fresco
esse tesouro incontável
que é a vivência
– isso que olhos e ouvidos testemunham
e recortam do caos
ou resgatam boiando
no mar da incompreensão;
o que foi arruinado pelo tempo,
mas ruminado nas retinas;
o que maturou de ecoar na consciência,
o que fendeu a pele e a alma em cicatrizes
(ah, a sabedoria da cicatriz:
transmutação da dolorosa ferida
em carimbo na bagagem de vida)
Faça da memória crisálida da experiência,
alce voo
para além dessa perspectiva mesquinha
do rancor e da mediocridade.
Faça jus ao que já era, ao que jaz,
e não faça da lembrança um criadouro de defuntos,
deixe os fatos que morreram
descansar em paz
e lembre dos idos
sem a vivacidade corrosiva da mágoa,
mas apenas com a cor desbotada
que devem ter.
O sol voltará a brilhar
só se
antes de tudo você
aprender a se amar.
para lembrar uma história
que mal começou
(ou começou mal)
Tenha na lembrança
sempre bem fresco
esse tesouro incontável
que é a vivência
– isso que olhos e ouvidos testemunham
e recortam do caos
ou resgatam boiando
no mar da incompreensão;
o que foi arruinado pelo tempo,
mas ruminado nas retinas;
o que maturou de ecoar na consciência,
o que fendeu a pele e a alma em cicatrizes
(ah, a sabedoria da cicatriz:
transmutação da dolorosa ferida
em carimbo na bagagem de vida)
Faça da memória crisálida da experiência,
alce voo
para além dessa perspectiva mesquinha
do rancor e da mediocridade.
Faça jus ao que já era, ao que jaz,
e não faça da lembrança um criadouro de defuntos,
deixe os fatos que morreram
descansar em paz
e lembre dos idos
sem a vivacidade corrosiva da mágoa,
mas apenas com a cor desbotada
que devem ter.
O sol voltará a brilhar
só se
antes de tudo você
aprender a se amar.
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29.3.09
DÁDIVA
Conceber é também ser
um pouco Deus.
Requer um zelo sábio,
desapegado,
de entrega,
que só os plenos sabem.
As mães são plenas.
Levitam como plumas
mesmo nas tormentas,
deságuam lágrimas por nada
e ainda assim não secam.
As mães são esses seres
fortes e suaves,
provedoras abundantes,
fontes de afeto e consolo.
Só nos recônditos das mães
a gente encontra isso:
o sossego mágico da gênese,
silêncio grávido de caos
que é a vida em seu começo.
Ouçam!
Uma mulher agora é mãe.
Nela há mistério e comunhão,
frutos de um encontro.
Mulher sagrada.
Abençoada.
Dentro dela
uma vida se segrega,
sangue do seu sangue,
sopro no seu ventre.
E, assim,
viver
já não é como antes...
um pouco Deus.
Requer um zelo sábio,
desapegado,
de entrega,
que só os plenos sabem.
As mães são plenas.
Levitam como plumas
mesmo nas tormentas,
deságuam lágrimas por nada
e ainda assim não secam.
As mães são esses seres
fortes e suaves,
provedoras abundantes,
fontes de afeto e consolo.
Só nos recônditos das mães
a gente encontra isso:
o sossego mágico da gênese,
silêncio grávido de caos
que é a vida em seu começo.
Ouçam!
Uma mulher agora é mãe.
Nela há mistério e comunhão,
frutos de um encontro.
Mulher sagrada.
Abençoada.
Dentro dela
uma vida se segrega,
sangue do seu sangue,
sopro no seu ventre.
E, assim,
viver
já não é como antes...
| Reações: |
14.3.09
AHORA
Apesar de mim, um passo e outro adiante
a pisar assim a incerteza dos vãos.
Apesar do fim, um início confiante.
A pesar um sim, no deserto de nãos.
Vou embora porque sim.
Vou, embora haja um fim.
Vou lá fora, hoje, assim.
Voo agora para mim.
Posso um passo,
posso outro.
Fora, passo
Dentro, um poço.
Um fica
Um passa
Um piso
Um passo
Um salto
Um poço
Um voo
Um pássaro.
No vão
eu vou.
Deserto
adiante.
Um centro
incerto.
O sim
e o não.
Em mim
um outro
assim
assaz
Passada
a hora
Agora
Fim.
a pisar assim a incerteza dos vãos.
Apesar do fim, um início confiante.
A pesar um sim, no deserto de nãos.
Vou embora porque sim.
Vou, embora haja um fim.
Vou lá fora, hoje, assim.
Voo agora para mim.
Posso um passo,
posso outro.
Fora, passo
Dentro, um poço.
Um fica
Um passa
Um piso
Um passo
Um salto
Um poço
Um voo
Um pássaro.
No vão
eu vou.
Deserto
adiante.
Um centro
incerto.
O sim
e o não.
Em mim
um outro
assim
assaz
Passada
a hora
Agora
Fim.
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18.10.08
CONFISSÃO
A hora morta
em que as luzes silenciam
é quando gritam pavores
bem dentro de mim.
Assim convivo com o temido
e calo aos poucos o faminto
que me habita,
o ser voraz que move a vida.
Qualquer delírio assombra,
Mesmo o mais ínfimo.
Estou náufrago de esperanças,
estupefato em apatias.
E a vida passa.
Porém, no fundo íntimo do abismo,
além do ego e daquilo
que turva, fere e deforma,
existe um farto que grita
não de temor,
mas de gana.
Uma centelha que clama
por incendiar-se.
Esse desejo da alma,
esse saber-se infinito
espera inquieto e me devora.
Essa latência do grito
é desde sempre, é sempre agora
é um atraso que não tem hora.
Este sou eu, pleno, inconformado
por parecer o fraco que chora.
em que as luzes silenciam
é quando gritam pavores
bem dentro de mim.
Assim convivo com o temido
e calo aos poucos o faminto
que me habita,
o ser voraz que move a vida.
Qualquer delírio assombra,
Mesmo o mais ínfimo.
Estou náufrago de esperanças,
estupefato em apatias.
E a vida passa.
Porém, no fundo íntimo do abismo,
além do ego e daquilo
que turva, fere e deforma,
existe um farto que grita
não de temor,
mas de gana.
Uma centelha que clama
por incendiar-se.
Esse desejo da alma,
esse saber-se infinito
espera inquieto e me devora.
Essa latência do grito
é desde sempre, é sempre agora
é um atraso que não tem hora.
Este sou eu, pleno, inconformado
por parecer o fraco que chora.
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4.7.08
MOVIMENTO Nº 7
Cansaço.
Nado contra,
nada faço.
Nada fácil.
Desassossego que persegue,
que persiste,
desencontro em trânsito,
tráfego fatal,
declínio, desastre, clausura.
Arte da inércia.
Cláusula de desistência.
Inépcia de ser.
Des-ser.
Não ser.
Descer ao Hades,
ao fundo do poço.
Aniquilar-se.
Anular-se assim.
Não-sim.
Fim
do túnel.
Findo percurso.
Finitude.
The end.
Nada.
Que nada!
Recurso.
Remendo das Moiras.
De novo sendo.
Nascendo das cinzas,
Fênix.
Tânatos derrotado.
Apologia apolínea:
luz, beleza.
Apogeu.
No topo, eu.
(Allegro
- ma non troppo)
Totem.
Zênite.
Zen.
Almejo.
Alço.
Alcanço.
Só eu comigo.
Só sem cansaço.
Só
sigo.
Consigo.
Go.
Gol!
:
Nado contra,
nada faço.
Nada fácil.
Desassossego que persegue,
que persiste,
desencontro em trânsito,
tráfego fatal,
declínio, desastre, clausura.
Arte da inércia.
Cláusula de desistência.
Inépcia de ser.
Des-ser.
Não ser.
Descer ao Hades,
ao fundo do poço.
Aniquilar-se.
Anular-se assim.
Não-sim.
Fim
do túnel.
Findo percurso.
Finitude.
The end.
Nada.
Que nada!
Recurso.
Remendo das Moiras.
De novo sendo.
Nascendo das cinzas,
Fênix.
Tânatos derrotado.
Apologia apolínea:
luz, beleza.
Apogeu.
No topo, eu.
(Allegro
- ma non troppo)
Totem.
Zênite.
Zen.
Almejo.
Alço.
Alcanço.
Só eu comigo.
Só sem cansaço.
Só
sigo.
Consigo.
Go.
Gol!
:
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13.6.08
TREVO
Poucas coisas, raras.
De todas (cantos,
risos, prantos,
copos, pratos, taras...)
uma, e somente uma,
é graça e sorte
e leve e forte.
Somente uma,
coisa rara,
no meu mundo é
você.
De todas (cantos,
risos, prantos,
copos, pratos, taras...)
uma, e somente uma,
é graça e sorte
e leve e forte.
Somente uma,
coisa rara,
no meu mundo é
você.
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2.5.08
RIZOMA
Eu quero beijos e a incerteza
de um futuro.
O que está por vir, há
– e isso basta.
Do tremor houve as quedas,
as quebras, os cacos.
E com eles, cortes.
E colagens, curas.
Mosaicos do que fôramos,
lembranças dançando na memória.
Assim somos: rizomas,
em fragmentos sendo,
dilacerados, loucos, santos
nas sendas da paixão.
Nossa vida é esta eterna sinopse.
Quero escrever-te em mim,
emaranhar-te em meu destino.
O amor é isto: um início sem fim.
Um descaminho.
Aqui nos achamos e nos perderemos.
de um futuro.
O que está por vir, há
– e isso basta.
Do tremor houve as quedas,
as quebras, os cacos.
E com eles, cortes.
E colagens, curas.
Mosaicos do que fôramos,
lembranças dançando na memória.
Assim somos: rizomas,
em fragmentos sendo,
dilacerados, loucos, santos
nas sendas da paixão.
Nossa vida é esta eterna sinopse.
Quero escrever-te em mim,
emaranhar-te em meu destino.
O amor é isto: um início sem fim.
Um descaminho.
Aqui nos achamos e nos perderemos.
| Reações: |
TERRA
I.
Esta terra que tudo dá
é a terra santa que me mantém.
A terra estéril da seca é a mesma
que no cio da colheita
semeia o ciclo das estações,
fecundando sonhos e esperanças,
germinando choros, frustrações.
Eu sou filho da Mãe Terra, e muito mamo em suas tetas
sujas do barro que alimenta vermes
e da areia que move ampulhetas;
mamas rijas como as pedras em que tropeço,
e que jorra o leite escuro
de suas glândulas mais íntimas.
Terra ferida e marcada por cicatrizes geográficas,
que recicla a erosão em paisagens verdejantes,
e faz purgar a vida que perdura tempos, águas, lógicas.
Terra que eu piso e me dá diamantes.
– Ó, deusa Gaia,
virgem, gaja, gueixa...
mãe de todos os seres e não-seres,
aqui soluço uma guaia,
mistura de mágoa e queixa:
em teu seio vou estar
até quando me comeres!
II.
É em Minas que vivo a terra plenamente.
Em Minas estou repleto de terra.
O árido e o fértil são pólos, extremos
que temos em nós e na terra.
Terra: complemento do Céu, e não seu oposto.
Nada vem da terra
porque
tudo da terra vem.
A terra dá de tudo: dádiva
de opostos e complementares.
A ambigüidade, sendo derivada
da diversidade, também é
atributo da terra.
E a repetição.
A repetição também o é.
E devido à sua diversidade
e repetição,
Minas é um tributo à terra,
ou, simplesmente, dela dádiva.
Tal qual a poesia.
III.
E assim encerro:
ser maduro é estar verde para a eternidade,
ou, quem sabe, podre para o fim.
O que faz a planta nascer e morrer
é o que há antes dela:
a terra, útero da existência.
E no entanto, ela – a terra
– não morre junto com a planta.
A cinza não é mais cinza, mas argila,
quando a vida come a morte,
que comeu a vida sobre a terra.
A morte é o húmus que aduba
e a semente verde é o esperma.
Terra:
ávida de morte,
grávida de vida.
Ser maduro é estar apto a ser colhido,
e a colheita exige uma dureza maleável como o solo:
madureza.
Esta terra que tudo dá
é a terra santa que me mantém.
A terra estéril da seca é a mesma
que no cio da colheita
semeia o ciclo das estações,
fecundando sonhos e esperanças,
germinando choros, frustrações.
Eu sou filho da Mãe Terra, e muito mamo em suas tetas
sujas do barro que alimenta vermes
e da areia que move ampulhetas;
mamas rijas como as pedras em que tropeço,
e que jorra o leite escuro
de suas glândulas mais íntimas.
Terra ferida e marcada por cicatrizes geográficas,
que recicla a erosão em paisagens verdejantes,
e faz purgar a vida que perdura tempos, águas, lógicas.
Terra que eu piso e me dá diamantes.
– Ó, deusa Gaia,
virgem, gaja, gueixa...
mãe de todos os seres e não-seres,
aqui soluço uma guaia,
mistura de mágoa e queixa:
em teu seio vou estar
até quando me comeres!
II.
É em Minas que vivo a terra plenamente.
Em Minas estou repleto de terra.
O árido e o fértil são pólos, extremos
que temos em nós e na terra.
Terra: complemento do Céu, e não seu oposto.
Nada vem da terra
porque
tudo da terra vem.
A terra dá de tudo: dádiva
de opostos e complementares.
A ambigüidade, sendo derivada
da diversidade, também é
atributo da terra.
E a repetição.
A repetição também o é.
E devido à sua diversidade
e repetição,
Minas é um tributo à terra,
ou, simplesmente, dela dádiva.
Tal qual a poesia.
III.
E assim encerro:
ser maduro é estar verde para a eternidade,
ou, quem sabe, podre para o fim.
O que faz a planta nascer e morrer
é o que há antes dela:
a terra, útero da existência.
E no entanto, ela – a terra
– não morre junto com a planta.
A cinza não é mais cinza, mas argila,
quando a vida come a morte,
que comeu a vida sobre a terra.
A morte é o húmus que aduba
e a semente verde é o esperma.
Terra:
ávida de morte,
grávida de vida.
Ser maduro é estar apto a ser colhido,
e a colheita exige uma dureza maleável como o solo:
madureza.
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2.3.08
DEVIR
Vem comigo, querida, enfrentar o mundo.
Estamos juntos, somos fortes.
Mil olhos nos vêem, mas não sabem
o que se passa sob a pele do óbvio.
Vem comigo, querida, ser feliz,
verter lágrimas, lavar os dias
com o frescor de estar vivo.
A vida, antes de você, apenas passava.
Hoje, ávida, floresce em meio às horas,
contente e incontida em si.
Vem, querida, comigo ouvir
o cântico dos cânticos,
compô-lo novamente na melodia
ofegante de nossos peitos,
dois pomos rubros.
Vem tornar macio o correr do tempo:
mel e pétalas, a cútis do ócio,
derme que escorre
por entre os ossos do eterno.
Cio suave, estro do ser.
Vem, derrama esse ópio, essa ambrosia,
esse anestésico, alegria,
esse elixir que contagia,
esse dopar-se sem torpor,
esse algo, esse tudo, esse amor.
Transborda, querida, e vem
comigo porque eu te amo,
te amo como ninguém.
Estamos juntos, somos fortes.
Mil olhos nos vêem, mas não sabem
o que se passa sob a pele do óbvio.
Vem comigo, querida, ser feliz,
verter lágrimas, lavar os dias
com o frescor de estar vivo.
A vida, antes de você, apenas passava.
Hoje, ávida, floresce em meio às horas,
contente e incontida em si.
Vem, querida, comigo ouvir
o cântico dos cânticos,
compô-lo novamente na melodia
ofegante de nossos peitos,
dois pomos rubros.
Vem tornar macio o correr do tempo:
mel e pétalas, a cútis do ócio,
derme que escorre
por entre os ossos do eterno.
Cio suave, estro do ser.
Vem, derrama esse ópio, essa ambrosia,
esse anestésico, alegria,
esse elixir que contagia,
esse dopar-se sem torpor,
esse algo, esse tudo, esse amor.
Transborda, querida, e vem
comigo porque eu te amo,
te amo como ninguém.
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30.1.08
JÁ, MAS
Quantas amarras, mulher,
te impedirão de ser minha?
Quais?
Pois não há nada de mais
em amar assim.
Diz o teu sim
com a boca mais doce que beijei.
Vem comigo num abraço
cavalgar perdida
o lugar algum dos sonhos.
Não vês?
O destino é um bufão cego
a rir de nós. Porém
pra sempre grato serei
ao desencontro de te achar.
Gira o mundo com teu sopro,
Amor.
Dissipa a bruma da incompreensão
que nos divide da delícia oculta
do outro.
Agora fecha os olhos e conta.
Te mostra pronta pra mim.
Não há de ser nada, não há
ninguém contra o teu já.
Não põe na história esse fim.
te impedirão de ser minha?
Quais?
Pois não há nada de mais
em amar assim.
Diz o teu sim
com a boca mais doce que beijei.
Vem comigo num abraço
cavalgar perdida
o lugar algum dos sonhos.
Não vês?
O destino é um bufão cego
a rir de nós. Porém
pra sempre grato serei
ao desencontro de te achar.
Gira o mundo com teu sopro,
Amor.
Dissipa a bruma da incompreensão
que nos divide da delícia oculta
do outro.
Agora fecha os olhos e conta.
Te mostra pronta pra mim.
Não há de ser nada, não há
ninguém contra o teu já.
Não põe na história esse fim.
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20.1.08
NUA E CRUA
Na guerra do amor
não há culpados,
mas feridos.
O jogo do amor
não se perde nem se ganha.
Joga-se apenas.
É que no amar não há lamentos,
erros,
penas,
acertos.
Amar é sem certeza,
entrega cega.
O amor não impõe regras,
não cria jogos, nem faz guerras...
amor sem logos.
Nele há Eros, não Áries
Vênus, não Marte
servos, não mártires.
Aqui leões matam cervos
e devoram sem dó.
Pois se oferecer
em sacrifício
é não sofrer.
E só.
não há culpados,
mas feridos.
O jogo do amor
não se perde nem se ganha.
Joga-se apenas.
É que no amar não há lamentos,
erros,
penas,
acertos.
Amar é sem certeza,
entrega cega.
O amor não impõe regras,
não cria jogos, nem faz guerras...
amor sem logos.
Nele há Eros, não Áries
Vênus, não Marte
servos, não mártires.
Aqui leões matam cervos
e devoram sem dó.
Pois se oferecer
em sacrifício
é não sofrer.
E só.
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TEMPORAL
Desisto, então, e te deixo.
Sem despedidas,
sem último beijo.
O ar imóvel e abafado prediz
a chuva que virá.
Temporal.
E ruas inundarão, árvores vão cair,
a cidade será caos com o dilúvio.
Pessoas vão morrer (ou se salvar por um triz).
Mas não eu,
nem você.
Nem ninguém: lágrimas não matam.
As coisas vão mesmo esfriar, esvanecer
e com o tempo serão lembranças, só.
Um tempo de nos evitarmos.
Um tempo para ouvir o apoio de amigos.
Um tempo de nos esbarrarmos na rua
– tempo de formalidades, aquele sem olhares cruzados,
sem toques no braço do outro, sem sorrisos charmosos,
sem abraços apertados.
Em outros tempos, passamos por lá
de mãos dadas, sonhando.
O suspiro se foi e agora é o ar abafado
nos fazendo suar frio num calor desses.
Logo o tempo vira e a chuva virá,
intensa mas sem ira.
Sem pena irá lavar a mesma rua de água,
depois lama
e folhas e lixo e fezes.
E o que um dia sentimos jazerá
soterrado sob os pés
de mil homens e mulheres.
Sem despedidas,
sem último beijo.
O ar imóvel e abafado prediz
a chuva que virá.
Temporal.
E ruas inundarão, árvores vão cair,
a cidade será caos com o dilúvio.
Pessoas vão morrer (ou se salvar por um triz).
Mas não eu,
nem você.
Nem ninguém: lágrimas não matam.
As coisas vão mesmo esfriar, esvanecer
e com o tempo serão lembranças, só.
Um tempo de nos evitarmos.
Um tempo para ouvir o apoio de amigos.
Um tempo de nos esbarrarmos na rua
– tempo de formalidades, aquele sem olhares cruzados,
sem toques no braço do outro, sem sorrisos charmosos,
sem abraços apertados.
Em outros tempos, passamos por lá
de mãos dadas, sonhando.
O suspiro se foi e agora é o ar abafado
nos fazendo suar frio num calor desses.
Logo o tempo vira e a chuva virá,
intensa mas sem ira.
Sem pena irá lavar a mesma rua de água,
depois lama
e folhas e lixo e fezes.
E o que um dia sentimos jazerá
soterrado sob os pés
de mil homens e mulheres.
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O TEMPO QUE FOR
Descobri alegria.
Alívio por saber que havia,
oculta que fosse.
Do fosso da alma uma brecha
improvável rasgou
e de lá
da lama imunda
o mundo se mostrou outro.
Belo que seja.
E, sujas, as mãos escavaram pedras
negras de limo
– as unhas rotas como cascos.
A nesga de luz invade a treva,
em desvantagem a vence.
E vê-se a vida com os olhos
de retinas virgens: o verde,
o azul primário e o profundo,
a terra.
E o ar rebenta fresco no peito.
Respira-se!
Véus já não há. Vejo. Ouço. Sinto.
Certezas não tenho.
Sincero comigo digo:
“Espera, Rodrigo. Confia.
Ser apressado dissipa
essa brisa pueril.”
Difícil arte esta: crer
apesar das lembranças.
Mas, alegre por enquanto,
aguardo o tempo que for
pela boca em flor
desabrochando um beijo.
O teu.
Alívio por saber que havia,
oculta que fosse.
Do fosso da alma uma brecha
improvável rasgou
e de lá
da lama imunda
o mundo se mostrou outro.
Belo que seja.
E, sujas, as mãos escavaram pedras
negras de limo
– as unhas rotas como cascos.
A nesga de luz invade a treva,
em desvantagem a vence.
E vê-se a vida com os olhos
de retinas virgens: o verde,
o azul primário e o profundo,
a terra.
E o ar rebenta fresco no peito.
Respira-se!
Véus já não há. Vejo. Ouço. Sinto.
Certezas não tenho.
Sincero comigo digo:
“Espera, Rodrigo. Confia.
Ser apressado dissipa
essa brisa pueril.”
Difícil arte esta: crer
apesar das lembranças.
Mas, alegre por enquanto,
aguardo o tempo que for
pela boca em flor
desabrochando um beijo.
O teu.
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O ELIXIR
No exílio de mim,
a desmedida necessária,
dose báquica do não-ser,
ausência outra da vontade.
Sucesso e glória ardem lá fora.
O alcance é nada,
um dardo cego,
um gotejar dos cântaros
do vão,
diluída ambição
no pingo do descaso.
O vinho nobre do âmago transborda
cálice obscuro a abrir-se-me,
eclipse,
sede do deslumbre insaciável.
Ser duplo em êxtase, apaixonado,
querer sem rumo ou predicado
desfrute lépido,
conhecimento avesso do mundo.
Beber filosófico:
no ingerir decanto
o olhar curtido
do encanto.
Encontro o outro.
Troco.
Toco a intangível
falta permanente.
Abandono inconseqüente ao ser
sozinho ser para vir-a-ser.
Devir de mim mesmo.
Dono do eu.
Deus.
a desmedida necessária,
dose báquica do não-ser,
ausência outra da vontade.
Sucesso e glória ardem lá fora.
O alcance é nada,
um dardo cego,
um gotejar dos cântaros
do vão,
diluída ambição
no pingo do descaso.
O vinho nobre do âmago transborda
cálice obscuro a abrir-se-me,
eclipse,
sede do deslumbre insaciável.
Ser duplo em êxtase, apaixonado,
querer sem rumo ou predicado
desfrute lépido,
conhecimento avesso do mundo.
Beber filosófico:
no ingerir decanto
o olhar curtido
do encanto.
Encontro o outro.
Troco.
Toco a intangível
falta permanente.
Abandono inconseqüente ao ser
sozinho ser para vir-a-ser.
Devir de mim mesmo.
Dono do eu.
Deus.
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DESCOMPASSO
Moça, desculpa: não sei dançar.
Meus pés são ágeis pra fugir, apenas.
Que passa que não acerto o passo?
E piso o pé – ui! – e piso em falso,
só dou vexame no salão...
Moça do céu, vixe, que as pernas chegam a dar nó!
Se não há dança pra dançar só,
como fazer pra te acompanhar?
A orquestra pára e sigo em frente,
escorrego e tombo – não há quem agüente.
Atropelo mútuo no baile da vida.
Estamos na pista e não temos par.
A música chama para dançar, mas
se vou, não danço,
se danço, erro.
A dança do amor, enfim,
é ridícula.
Bela.
Mas ridícula.
Meus pés são ágeis pra fugir, apenas.
Que passa que não acerto o passo?
E piso o pé – ui! – e piso em falso,
só dou vexame no salão...
Moça do céu, vixe, que as pernas chegam a dar nó!
Se não há dança pra dançar só,
como fazer pra te acompanhar?
A orquestra pára e sigo em frente,
escorrego e tombo – não há quem agüente.
Atropelo mútuo no baile da vida.
Estamos na pista e não temos par.
A música chama para dançar, mas
se vou, não danço,
se danço, erro.
A dança do amor, enfim,
é ridícula.
Bela.
Mas ridícula.
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LIVRO
Queria me ver livre das páginas amareladas
e de todo cheiro de conhecimento novo
em forma de pó.
A embarcação de papel me leva
ao mundo abstrato de imagens em ação,
mundo leve de formas pesadas.
É a concretude desdobrando-se em sonho,
e o onírico esvaindo-se em letras;
a multiplicidade latente de sentidos
alterada em lápides esculpidas à mão,
unilaterando todo um universo. Literatura.
Lápis e caneta em punho destruindo em signos
o insignificável.
Fui moldado às folhas mil
minha capa dura não se dobra, move-se
apenas, o suficiente para abrir caminho
a uma tênue cicatriz de idéias.
Folhas falhas, filhas de um sentimento fútil
de aprisionar palavras, antes:
pensamentos, folias...
Fui moldado e sou retangular.
Reta angular. Tijolo.
Pa-ra-le-le-pi-pe-da-da na vidraça humana.
e de todo cheiro de conhecimento novo
em forma de pó.
A embarcação de papel me leva
ao mundo abstrato de imagens em ação,
mundo leve de formas pesadas.
É a concretude desdobrando-se em sonho,
e o onírico esvaindo-se em letras;
a multiplicidade latente de sentidos
alterada em lápides esculpidas à mão,
unilaterando todo um universo. Literatura.
Lápis e caneta em punho destruindo em signos
o insignificável.
Fui moldado às folhas mil
minha capa dura não se dobra, move-se
apenas, o suficiente para abrir caminho
a uma tênue cicatriz de idéias.
Folhas falhas, filhas de um sentimento fútil
de aprisionar palavras, antes:
pensamentos, folias...
Fui moldado e sou retangular.
Reta angular. Tijolo.
Pa-ra-le-le-pi-pe-da-da na vidraça humana.
| Reações: |
ANAMORADA
Escrevo para a namorada que não tenho:
a figura utópica platinada,
a mulher dourada, adorada e lânguida;
a alegria onírica e nublada, certeza frágil
imprecisão.
Poesia errante que consola um nada que há em mim.
Efêmero é o ócio em que a concebo deusa.
Infinita é a ponte que nos separa.
Há um abismo, sei, um vale imenso,
pomar de metáforas – algumas verdes, outras podres –
e um cavalo alado para percorrê-lo, também.
Escolhi a ponte. O porquê não sei...
Remei com versos plúmbeos
e naufraguei no mar da liberdade.
Saciei a sede num copo d’água. Era fino vidro:
não se quebrou, cortou-me o lábio.
Caco de sangue coagulado
fere mais do que cicatriza.
Tudo isso são bobagens, frases ao ar, palavras aleatórias...
Tal retórica de nada serve:
brincadeira de mau gosto.
Dou meu rosto à palmatória e a mão à poesia:
façam deles o que quiserem.
Há metafísica bastante para encher seringas descartáveis.
A mulher que não tenho é a Arte, e seus cabelos são longos.
Se oferece nua e seu corpo é amorfo.
Um balé de olhos e ouvidos passa por mim e danço;
as pernas do entendimento são paralíticas,
mas o que se move é intuitivo e sólido,
fossilizado em mim.
Tenho uma deusa e tive algumas namoradas.
Em cada uma, diferentes filigranas.
Muito amei a todas, mas
penetrar na Arte exige ereção de idéias...
Calma: nenhuma ansiedade.
A melhor conquista e noite são demoradas.
a figura utópica platinada,
a mulher dourada, adorada e lânguida;
a alegria onírica e nublada, certeza frágil
imprecisão.
Poesia errante que consola um nada que há em mim.
Efêmero é o ócio em que a concebo deusa.
Infinita é a ponte que nos separa.
Há um abismo, sei, um vale imenso,
pomar de metáforas – algumas verdes, outras podres –
e um cavalo alado para percorrê-lo, também.
Escolhi a ponte. O porquê não sei...
Remei com versos plúmbeos
e naufraguei no mar da liberdade.
Saciei a sede num copo d’água. Era fino vidro:
não se quebrou, cortou-me o lábio.
Caco de sangue coagulado
fere mais do que cicatriza.
Tudo isso são bobagens, frases ao ar, palavras aleatórias...
Tal retórica de nada serve:
brincadeira de mau gosto.
Dou meu rosto à palmatória e a mão à poesia:
façam deles o que quiserem.
Há metafísica bastante para encher seringas descartáveis.
A mulher que não tenho é a Arte, e seus cabelos são longos.
Se oferece nua e seu corpo é amorfo.
Um balé de olhos e ouvidos passa por mim e danço;
as pernas do entendimento são paralíticas,
mas o que se move é intuitivo e sólido,
fossilizado em mim.
Tenho uma deusa e tive algumas namoradas.
Em cada uma, diferentes filigranas.
Muito amei a todas, mas
penetrar na Arte exige ereção de idéias...
Calma: nenhuma ansiedade.
A melhor conquista e noite são demoradas.
| Reações: |
A FLOR
Além do muro
a flor aflora
bela
porém oculta.
Por uma porta
ou janela
procuro a flor,
desejo tê-la.
Mas não há fresta
que ligue
a cor ao olho,
o lábio à pétala.
Prefiro o pólen
que inebrie
o espinho
que me corte,
a ser sozinho
na rua
a vagar
pela sorte.
Jardim fugaz.
Éden?
quimera
de bem-me-quer.
a flor aflora
bela
porém oculta.
Por uma porta
ou janela
procuro a flor,
desejo tê-la.
Mas não há fresta
que ligue
a cor ao olho,
o lábio à pétala.
Prefiro o pólen
que inebrie
o espinho
que me corte,
a ser sozinho
na rua
a vagar
pela sorte.
Jardim fugaz.
Éden?
quimera
de bem-me-quer.
| Reações: |
VÃO-SE OS ANÉIS
Duelo:
o anel e o dedo,
um ringue
que a mão finge.
Na palma,
as linhas formam
a renda
do tempo.
Rugas
traçadas por quem?
A mão humana
que busca
ou
que adeus acena?
Certeza
que a escrita tangencia,
palpite
que lateja entre as falanges,
escorre e nos escapa.
Areia da dúvida.
O gesto
entre o aplauso e o tapa
é o estalo
de entregar o rosto
estilo
de empenhar o gosto,
ter pulso
e empurrar-se ao alto.
Punho e unhas.
Minhas armas.
O resto,
um dedo em riste.
Se trágico ou ridículo,
desdenha-se o risco.
Se o braço forte
é triste,
importa é que
lutar preciso.
Celebro em luto
o tato que persiste.
o anel e o dedo,
um ringue
que a mão finge.
Na palma,
as linhas formam
a renda
do tempo.
Rugas
traçadas por quem?
A mão humana
que busca
ou
que adeus acena?
Certeza
que a escrita tangencia,
palpite
que lateja entre as falanges,
escorre e nos escapa.
Areia da dúvida.
O gesto
entre o aplauso e o tapa
é o estalo
de entregar o rosto
estilo
de empenhar o gosto,
ter pulso
e empurrar-se ao alto.
Punho e unhas.
Minhas armas.
O resto,
um dedo em riste.
Se trágico ou ridículo,
desdenha-se o risco.
Se o braço forte
é triste,
importa é que
lutar preciso.
Celebro em luto
o tato que persiste.
| Reações: |
EST ANQUE
Converso comigo mesmo.
Não sou maluco.
Converso com versos.
Não sou poeta: tento.
Tanto tempo com tantos segui,
sonhando sempre sonhando.
Mas há o tempo em que sigo só,
não sei porquê.
Será que não consegui, talvez,
um certo sossego
de sonhar em paz?
As barreiras são transparentes,
quando se é cego.
O futuro é tão presente,
quando se é sonhador...
O presente é tão passado,
quando se é súbito.
E o passado é tão presente,
quando se sonha a dor.
Sigo sozinho.
Nenhuma mão suja
a me acompanhar.
Nenhuma palavra sórdida
a sondar meu caminho,
meus ideais.
Carrego um sorriso travado,
um choro contido.
E a certeza sóbria de que seria contigo
o meu prosseguir.
Abandonaste
a meta.
Como a pedra, sólida,
estanca n’água.
O resto... mágoa.
Não sou maluco.
Converso com versos.
Não sou poeta: tento.
Tanto tempo com tantos segui,
sonhando sempre sonhando.
Mas há o tempo em que sigo só,
não sei porquê.
Será que não consegui, talvez,
um certo sossego
de sonhar em paz?
As barreiras são transparentes,
quando se é cego.
O futuro é tão presente,
quando se é sonhador...
O presente é tão passado,
quando se é súbito.
E o passado é tão presente,
quando se sonha a dor.
Sigo sozinho.
Nenhuma mão suja
a me acompanhar.
Nenhuma palavra sórdida
a sondar meu caminho,
meus ideais.
Carrego um sorriso travado,
um choro contido.
E a certeza sóbria de que seria contigo
o meu prosseguir.
Abandonaste
a meta.
Como a pedra, sólida,
estanca n’água.
O resto... mágoa.
| Reações: |
CORPOS
Corpos.
Na madrugada. Corpos.
Entrelaçados.
Corpos apenas corpos.
Pulsando.
Mentindo.
Sendo. Superficialmente.
Suficientemente corpos.
Anticorpos do amor
contra o vírus da solidão.
Corpos. Sem nome, razão,
sentimento.
Corpos: carne, osso, sangue.
E só.
Corpos por um momento.
Cinzas, terra, pó.
Corpos: não-movimento do nó.
Do nós.
Rendamo-nos aos corpos,
aos copos,
às copas,
às cópulas
e às culpas.
E vivamos em paz.
Na madrugada. Corpos.
Entrelaçados.
Corpos apenas corpos.
Pulsando.
Mentindo.
Sendo. Superficialmente.
Suficientemente corpos.
Anticorpos do amor
contra o vírus da solidão.
Corpos. Sem nome, razão,
sentimento.
Corpos: carne, osso, sangue.
E só.
Corpos por um momento.
Cinzas, terra, pó.
Corpos: não-movimento do nó.
Do nós.
Rendamo-nos aos corpos,
aos copos,
às copas,
às cópulas
e às culpas.
E vivamos em paz.
| Reações: |
O CALAR DO CALOR
Não sente que a fala
ausente
implode na gente um tremor cardíaco,
um calor contente,
um ranger de dentes...
qual um trem expresso trepidando os trilhos,
o nascer de um filho,
um falhar terrível
de articulações,
de entendimentos,
de momentos,
um... aumento
de... pudor?
Sente?
Sinto.
À mente eu minto,
esquivo-me.
Mas enfraqueço.
E arquivo-me.
Esqueço.
Ah, a paixão é um pé
e a palavra, um... um calo.
Por isso, não falo.
Calo.
ausente
implode na gente um tremor cardíaco,
um calor contente,
um ranger de dentes...
qual um trem expresso trepidando os trilhos,
o nascer de um filho,
um falhar terrível
de articulações,
de entendimentos,
de momentos,
um... aumento
de... pudor?
Sente?
Sinto.
À mente eu minto,
esquivo-me.
Mas enfraqueço.
E arquivo-me.
Esqueço.
Ah, a paixão é um pé
e a palavra, um... um calo.
Por isso, não falo.
Calo.
| Reações: |
O VERBO SER
Após uma vastidão passar
durante um quase breve instante,
suficiente para se considerar vida,
acumular livros na estante,
deixar a memória cheirando a mofo
e o paladar curtido em bocas alheias
e os olhos ofuscados pelos sonhos
e as pernas fortes e bambas
por percorrerem léguas rumo ao léu...
a fraqueza domina o presente.
Estão as folhas da palmeira
sem perspectiva,
mesmo habitando o céu.
O sabor do vento é amargo
e o sol esfola a clorofila
de uma esperança desbotada.
Em pleno meio-dia,
em algum canto em evidência,
acham-se homens em alvorada.
Assim os artistas insistem
em conjugar o verbo da existência.
durante um quase breve instante,
suficiente para se considerar vida,
acumular livros na estante,
deixar a memória cheirando a mofo
e o paladar curtido em bocas alheias
e os olhos ofuscados pelos sonhos
e as pernas fortes e bambas
por percorrerem léguas rumo ao léu...
a fraqueza domina o presente.
Estão as folhas da palmeira
sem perspectiva,
mesmo habitando o céu.
O sabor do vento é amargo
e o sol esfola a clorofila
de uma esperança desbotada.
Em pleno meio-dia,
em algum canto em evidência,
acham-se homens em alvorada.
Assim os artistas insistem
em conjugar o verbo da existência.
| Reações: |
A RODA
Deixe a curva sair pela tangente,
deixe a faca perder o fio
e o fio perder-se em nó.
Deixe o gelo queimar de frio
porque o cio que existe em nós
se derrete de repente,
assim
como a cama transforma a gente
em serpentes de pedra e água.
Quero pedir trégua
sempre que puder.
Quero poder sempre
te abraçar, porém
sem precisar
te querer.
Eu quero ser-te
apenas num flerte;
flertar a ponto de petrificar
o teu já farto ser;
tentar-te a ponto de enfartar
meu falo porque sabes
que falo
da boca pra fora. Dentro
de você confundo
os pronomes: fundo
mim em ti, nós em eu,
eu em você,
e fonte em foz,
gemido em voz,
dois em mais,
nós em um:
até que me fundo dentro do teu
fundo mais profundo:
orgasmo de agora e dor.
Que a tangente contorça a gente
numa curva mais que perfeita:
nós dois num círculo cósmico,
rodando pela vida a fora.
Repito-me:
Quero pedir trégua
sempre que puder.
Quero poder sempre
te abraçar, porém
sem precisar
te querer.
Eu quero ser-te
apenas num flerte;
flertar a ponto de prontificar
o teu já furto ser;
tentar-te a ponto
de enfartar-me
em fulo porque sabes
meu falo
da boca pra dentro. Fora
de você confundo
meus mundos, fundo
um eu em ti,
fertilizo o óvulo,
genocido genes,
quando gemes “hummm...”
Até que me fundo dentro do teu
fundo mais profundo:
sarcasmo que aflora em dor.
Que a gente distorça a mente
no pretérito-mais-que-perfeito:
nós um no círculo cármico,
vivendo pela Roda afora.
Repito-me.
deixe a faca perder o fio
e o fio perder-se em nó.
Deixe o gelo queimar de frio
porque o cio que existe em nós
se derrete de repente,
assim
como a cama transforma a gente
em serpentes de pedra e água.
Quero pedir trégua
sempre que puder.
Quero poder sempre
te abraçar, porém
sem precisar
te querer.
Eu quero ser-te
apenas num flerte;
flertar a ponto de petrificar
o teu já farto ser;
tentar-te a ponto de enfartar
meu falo porque sabes
que falo
da boca pra fora. Dentro
de você confundo
os pronomes: fundo
mim em ti, nós em eu,
eu em você,
e fonte em foz,
gemido em voz,
dois em mais,
nós em um:
até que me fundo dentro do teu
fundo mais profundo:
orgasmo de agora e dor.
Que a tangente contorça a gente
numa curva mais que perfeita:
nós dois num círculo cósmico,
rodando pela vida a fora.
Repito-me:
Quero pedir trégua
sempre que puder.
Quero poder sempre
te abraçar, porém
sem precisar
te querer.
Eu quero ser-te
apenas num flerte;
flertar a ponto de prontificar
o teu já furto ser;
tentar-te a ponto
de enfartar-me
em fulo porque sabes
meu falo
da boca pra dentro. Fora
de você confundo
meus mundos, fundo
um eu em ti,
fertilizo o óvulo,
genocido genes,
quando gemes “hummm...”
Até que me fundo dentro do teu
fundo mais profundo:
sarcasmo que aflora em dor.
Que a gente distorça a mente
no pretérito-mais-que-perfeito:
nós um no círculo cármico,
vivendo pela Roda afora.
Repito-me.
| Reações: |
VERBORRAGIA
Há um mistério bonito
em ser o que sou
e não saber o que sou.
Tudo que vivo, tudo que ouço, tudo que vejo
é um ir e vir de coisas, seres, experiências,
é movimento.
Não sei o que sou porque não sou o que,
sou oco.
Ser não é ser, mas estar
sendo, ser
estando.
E serestando as pessoas som,
porém sôo diferente,
pois é preciso eu não ser eu
para saber o que sou.
Portanto, ser é estar: to be.
O verbo em mutação conjuga a liberdade
de expressão.
Se no princípio já era o Verbo,
o presente é o meio
que no futuro será fim.
Quero being; nunca serei-a.
Nunca serei,
nem nunca seremos:
o Nunca será.
_________________________________
Eu não pedi a pureza plácida
digna dos deuses comuns.
Eu me fiz.
Eu me faço.
Eu: Mefisto.
Mefisto-me?
Visto-me!
Firo-me.
O meu poder é flácido,
digno dos dogmas,
magma dos males.
Eu sou a fatia de mim mesmo.
Sou a faustia de mim mesmo.
Sou a ênfase do eu,
do eu fui em fase de eu sou
do eu sou em face do que sempre fui.
Eu sou o que sou e sou o que já fui,
e sou ainda o que ainda serei:
sou a somatória do ser presente
que soa em todos os tempos passados e futuros.
No meu tempo eu sou rei: mando eu.
E se quero ser rei, sou.
E se o quero, serei: eu posso.
Meu tempo passa e eu contemplo;
meu templo é oco e eu completo.
Do ser repleto eu sou o osso,
o fóssil, o fácil...
um poço.
em ser o que sou
e não saber o que sou.
Tudo que vivo, tudo que ouço, tudo que vejo
é um ir e vir de coisas, seres, experiências,
é movimento.
Não sei o que sou porque não sou o que,
sou oco.
Ser não é ser, mas estar
sendo, ser
estando.
E serestando as pessoas som,
porém sôo diferente,
pois é preciso eu não ser eu
para saber o que sou.
Portanto, ser é estar: to be.
O verbo em mutação conjuga a liberdade
de expressão.
Se no princípio já era o Verbo,
o presente é o meio
que no futuro será fim.
Quero being; nunca serei-a.
Nunca serei,
nem nunca seremos:
o Nunca será.
_________________________________
Eu não pedi a pureza plácida
digna dos deuses comuns.
Eu me fiz.
Eu me faço.
Eu: Mefisto.
Mefisto-me?
Visto-me!
Firo-me.
O meu poder é flácido,
digno dos dogmas,
magma dos males.
Eu sou a fatia de mim mesmo.
Sou a faustia de mim mesmo.
Sou a ênfase do eu,
do eu fui em fase de eu sou
do eu sou em face do que sempre fui.
Eu sou o que sou e sou o que já fui,
e sou ainda o que ainda serei:
sou a somatória do ser presente
que soa em todos os tempos passados e futuros.
No meu tempo eu sou rei: mando eu.
E se quero ser rei, sou.
E se o quero, serei: eu posso.
Meu tempo passa e eu contemplo;
meu templo é oco e eu completo.
Do ser repleto eu sou o osso,
o fóssil, o fácil...
um poço.
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ELE E ELA
I. Eles
Belo é ler-te os lábios sibilando longas linhas
de um livro em português:
lindos como as pétalas da flor,
da última flor inculta e bela,
deflorada pelo célebre Camões.
Lanças uma sílaba no ar,
calas no silêncio entre as falas,
que não falas: silencias em voz alta,
simulando beijos modelados pelas pálpebras
da tua boca de quem lê.
Olhos trocam flertes com as palavras,
libertando-as das folhas que enclausuram
a libido da leitura.
E, lentamente, língua e letras se misturam
numa cópula declamatória.
II. Análise
Belo é ler-te os lábios sibilando:
lanças uma sílaba no ar,
olhos trocam flertes com as palavras,
libertando-as das folhas;
calas no silêncio
entre as longas linhas de um livro
que enclausuram a libido
das falas que não falas:
silencias em português.
Lindos como as pétalas da flor,
da última flor em voz alta,
simulando leitura.
E, lentamente, beijos
modelados pelas pálpebras, língua e letras
se misturam numa inculta e bela
deflorada cópula declamatória
da tua boca de quem lê pelo célebre.
Camões.
III. Síntese ou título
ELE E ELA
L E ELA
ELE ELA
ELELA
EL E LA
LELA
LÊ-LA
ELEA
ELE-A
L. A.
LOS ANGELES
LOSANG
ELES
Belo é ler-te os lábios sibilando longas linhas
de um livro em português:
lindos como as pétalas da flor,
da última flor inculta e bela,
deflorada pelo célebre Camões.
Lanças uma sílaba no ar,
calas no silêncio entre as falas,
que não falas: silencias em voz alta,
simulando beijos modelados pelas pálpebras
da tua boca de quem lê.
Olhos trocam flertes com as palavras,
libertando-as das folhas que enclausuram
a libido da leitura.
E, lentamente, língua e letras se misturam
numa cópula declamatória.
II. Análise
Belo é ler-te os lábios sibilando:
lanças uma sílaba no ar,
olhos trocam flertes com as palavras,
libertando-as das folhas;
calas no silêncio
entre as longas linhas de um livro
que enclausuram a libido
das falas que não falas:
silencias em português.
Lindos como as pétalas da flor,
da última flor em voz alta,
simulando leitura.
E, lentamente, beijos
modelados pelas pálpebras, língua e letras
se misturam numa inculta e bela
deflorada cópula declamatória
da tua boca de quem lê pelo célebre.
Camões.
III. Síntese ou título
ELE E ELA
L E ELA
ELE ELA
ELELA
EL E LA
LELA
LÊ-LA
ELEA
ELE-A
L. A.
LOS ANGELES
LOSANG
ELES
| Reações: |
PURGATÓRIO DE PALAVRAS
Padeço.
O mundo lógico impõe seu preço: palavras.
Quantas vezes não morremos feridos por elas?
Sílabas tônicas marcando o ritmo de nossos passos,
cartas marcadas num jogo de métrica. Verso,
agora verso o teu inverso, manejo
a tática de reverter-te, tateio
por entre as farpas paroxítonas, reviro
arames fortes com voltas várias, padeço
nas quatro linhas do mesmo cárcere. Seu servo
eu sou. Escravo.
Escavo
uma saída com a mão
direita, motor de idéias articuladas,
grafando um túnel na escuridão do caos;
e quanto mais penetro, mais me perco:
o profundo é vão.
Palavras:
vocábulos lavrados no palato do inferno,
vibratos vacilantes na garganta do diabo,
magma purgando das entranhas da idéia,
chagas de quem chora a incomunicabilidade.
O mundo lógico impõe seu preço: palavras.
Quantas vezes não morremos feridos por elas?
Sílabas tônicas marcando o ritmo de nossos passos,
cartas marcadas num jogo de métrica. Verso,
agora verso o teu inverso, manejo
a tática de reverter-te, tateio
por entre as farpas paroxítonas, reviro
arames fortes com voltas várias, padeço
nas quatro linhas do mesmo cárcere. Seu servo
eu sou. Escravo.
Escavo
uma saída com a mão
direita, motor de idéias articuladas,
grafando um túnel na escuridão do caos;
e quanto mais penetro, mais me perco:
o profundo é vão.
Palavras:
vocábulos lavrados no palato do inferno,
vibratos vacilantes na garganta do diabo,
magma purgando das entranhas da idéia,
chagas de quem chora a incomunicabilidade.
| Reações: |
REGISTRO
Efemeridade.
E nós enfermos desta condição,
preferindo o eterno e o etéreo,
proferindo monumentos,
não momentos,
a trocar o mero
pelo consagrado.
Por mais
que o artista insista
em deter a obra,
quem a tem é outrem:
seu ouvirolhar
é que o faz
criador fugaz.
O Teatro é por ser feito,
e o ator é ostra-e-pérola,
se um agora eclodir.
Do caos desse presente,
verbo ser mais-que-perfeito,
se conjuga uma chama:
cena.
Registro qual?
Há finalidade no paradoxo?
Tão essencial
ou desprezível quanto isto,
é um eco do espetáculo
quando não-saudoso
e não-vivido.
Afinal:
a vida
não dura mais do que
ela própria.
E nós enfermos desta condição,
preferindo o eterno e o etéreo,
proferindo monumentos,
não momentos,
a trocar o mero
pelo consagrado.
Por mais
que o artista insista
em deter a obra,
quem a tem é outrem:
seu ouvirolhar
é que o faz
criador fugaz.
O Teatro é por ser feito,
e o ator é ostra-e-pérola,
se um agora eclodir.
Do caos desse presente,
verbo ser mais-que-perfeito,
se conjuga uma chama:
cena.
Registro qual?
Há finalidade no paradoxo?
Tão essencial
ou desprezível quanto isto,
é um eco do espetáculo
quando não-saudoso
e não-vivido.
Afinal:
a vida
não dura mais do que
ela própria.
| Reações: |
MUDO
Eu mudo.
Não calo aquilo que emudece em mim.
Erram meus pés o colo do mundo,
eram de barro e jorravam terra no chão.
Hoje o que são?
Pés à paisana, asfálticos,
protegidos do negrume urbano.
Que toque os pés a pele da natura
lave-os de argila e eleve às copas
o adubar-se do silêncio grávido
de um grito:
o de ser humano.
Não calo aquilo que emudece em mim.
Erram meus pés o colo do mundo,
eram de barro e jorravam terra no chão.
Hoje o que são?
Pés à paisana, asfálticos,
protegidos do negrume urbano.
Que toque os pés a pele da natura
lave-os de argila e eleve às copas
o adubar-se do silêncio grávido
de um grito:
o de ser humano.
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O QUE NÃO MORREU
O que não morreu
está por aí
a perambular
a insistir
e a nos convencer
de que não morreu.
O que não morreu
então permanece
mesmo se parece
que já foi demais.
O que não morreu
a si contraria
aos outros engana
Um fogo sem chama
um mato sem guia
um morro sem pico
um berro sem grito
um quarto sem cama.
O que não morreu
edifica
ressuscita.
Assim somos nós
e estamos aqui.
Pois o que não morreu
merece estar vivo.
está por aí
a perambular
a insistir
e a nos convencer
de que não morreu.
O que não morreu
então permanece
mesmo se parece
que já foi demais.
O que não morreu
a si contraria
aos outros engana
Um fogo sem chama
um mato sem guia
um morro sem pico
um berro sem grito
um quarto sem cama.
O que não morreu
edifica
ressuscita.
Assim somos nós
e estamos aqui.
Pois o que não morreu
merece estar vivo.
| Reações: |
TENTATIVA DE EXPLICAÇÃO
O que seria a loucura?
O início ou o fim da aventura
de querer viver sem ser louco?
Seria ela um estilo
de escrita, de idéias em movimento,
que rege os poetas, os mares o vento?
Ou seria, ainda, o alimento
das mentes, árvores, montes,
dos mortos de fome e dos fartos?
Seria o concreto ou o abstrato?
O certo ou o errado?
O sul ou o norte?
A vida ou a morte?
Seria azar, seria sorte,
ou vergonha, ou proeza,
ser louco em sã consciência?
Ou seria ridícula a beleza
de tentar ser lúcido em vã demência?
O que seria a loucura: má ou boa?
Seria Deus a própria loucura?
Ou seria a loucura Deus em pessoa?
Ser louco é escrever um poema
onde ser louco é o próprio tema (?)
O homem é louco por natureza.
E quem me achar louco ou insano
por afirmar isso, com certeza
está longe de ser humano.
O início ou o fim da aventura
de querer viver sem ser louco?
Seria ela um estilo
de escrita, de idéias em movimento,
que rege os poetas, os mares o vento?
Ou seria, ainda, o alimento
das mentes, árvores, montes,
dos mortos de fome e dos fartos?
Seria o concreto ou o abstrato?
O certo ou o errado?
O sul ou o norte?
A vida ou a morte?
Seria azar, seria sorte,
ou vergonha, ou proeza,
ser louco em sã consciência?
Ou seria ridícula a beleza
de tentar ser lúcido em vã demência?
O que seria a loucura: má ou boa?
Seria Deus a própria loucura?
Ou seria a loucura Deus em pessoa?
Ser louco é escrever um poema
onde ser louco é o próprio tema (?)
O homem é louco por natureza.
E quem me achar louco ou insano
por afirmar isso, com certeza
está longe de ser humano.
| Reações: |
TEATRO
Quem és tu que distante me tentas
tanto quanto eu tento me livrar
de louvar-te? Quem?
Quero livrar-me de ti!
Sem ti estou
em ti. Estou só.
Só em ti estou só e em mais ninguém.
Somente te deténs em me ter
solitário.
Mas meu amor se derrete por quem
me retém. E me tens.
Portanto, amo-te.
______________________________
Estou atento, porém.
(um tanto tonto também)
Se te contento, está bem;
se te destrato, contudo,
desandas:
sentimentos contidos
ou em descontrole
são trôpegos;
evitar cultivá-los, no entanto,
é mostrar-se hermético,
antes, sem tato, sem ética.
Tolo. Imaturo.
______________________________
A arte é sintética, sim.
É a crosta dos fatos
talhada no tempo,
as gotas memênticas decantadas,
a escritura filtrada da História,
é o canto pertinente do cogito.
Então nos resta calar.
E escutar, assim, o rumor
que brota dentro de nós,
artistas, nós
crianças crescidas
da trupe humana.
Nosso mundo é o Teatro
(não o teatro-do-mundo,
dos títeres românticos,
nem o mundo do teatro,
das vedetes tresloucadas),
essa fronteira entre lugar nenhum
e a concretude impactante.
Teatro, este muro suave
entre o ser e o não ser.
Teatro, esta liberdade no curso dos fatos,
esta comédia sem graça,
esta desgraça divertida,
esta tragédia necessária.
O lugar-de-onde-se-vê
o mundo,
observatório do Homem.
Teatro: palco da Humanidade,
espelho rachado do que somos.
______________________________
Tu me tens e desisto de afastar-te.
Aceito a solitude de perguntas que jamais,
jamais terão resposta jamais
e consinto que me tenhas
instrumento de tua arte.
Tua arte em prol da paz.
tanto quanto eu tento me livrar
de louvar-te? Quem?
Quero livrar-me de ti!
Sem ti estou
em ti. Estou só.
Só em ti estou só e em mais ninguém.
Somente te deténs em me ter
solitário.
Mas meu amor se derrete por quem
me retém. E me tens.
Portanto, amo-te.
______________________________
Estou atento, porém.
(um tanto tonto também)
Se te contento, está bem;
se te destrato, contudo,
desandas:
sentimentos contidos
ou em descontrole
são trôpegos;
evitar cultivá-los, no entanto,
é mostrar-se hermético,
antes, sem tato, sem ética.
Tolo. Imaturo.
______________________________
A arte é sintética, sim.
É a crosta dos fatos
talhada no tempo,
as gotas memênticas decantadas,
a escritura filtrada da História,
é o canto pertinente do cogito.
Então nos resta calar.
E escutar, assim, o rumor
que brota dentro de nós,
artistas, nós
crianças crescidas
da trupe humana.
Nosso mundo é o Teatro
(não o teatro-do-mundo,
dos títeres românticos,
nem o mundo do teatro,
das vedetes tresloucadas),
essa fronteira entre lugar nenhum
e a concretude impactante.
Teatro, este muro suave
entre o ser e o não ser.
Teatro, esta liberdade no curso dos fatos,
esta comédia sem graça,
esta desgraça divertida,
esta tragédia necessária.
O lugar-de-onde-se-vê
o mundo,
observatório do Homem.
Teatro: palco da Humanidade,
espelho rachado do que somos.
______________________________
Tu me tens e desisto de afastar-te.
Aceito a solitude de perguntas que jamais,
jamais terão resposta jamais
e consinto que me tenhas
instrumento de tua arte.
Tua arte em prol da paz.
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