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Showing posts from January, 2008

JÁ, MAS

Quantas amarras, mulher, te impedirão de ser minha? Quais? Pois não há nada de mais em amar assim. Diz o teu sim com a boca mais doce que beijei. Vem comigo num abraço cavalgar perdida o lugar algum dos sonhos. Não vês? O destino é um bufão cego a rir de nós. Porém pra sempre grato serei ao desencontro de te achar. Gira o mundo com teu sopro, Amor. Dissipa a bruma da incompreensão que nos divide da delícia oculta do outro. Agora fecha os olhos e conta. Te mostra pronta pra mim. Não há de ser nada, não há ninguém contra o teu já. Não põe na história esse fim.

NUA E CRUA

Na guerra do amor não há culpados, mas feridos. O jogo do amor não se perde nem se ganha. Joga-se apenas. É que no amar não há lamentos, erros, penas, acertos. Amar é sem certeza, entrega cega. O amor não impõe regras, não cria jogos, nem faz guerras... amor sem logos. Nele há Eros, não Áries Vênus, não Marte servos, não mártires. Aqui leões matam cervos e devoram sem dó. Pois se oferecer em sacrifício é não sofrer. E só.

TEMPORAL

Desisto, então, e te deixo. Sem despedidas, sem último beijo. O ar imóvel e abafado prediz a chuva que virá. Temporal. E ruas inundarão, árvores vão cair, a cidade será caos com o dilúvio. Pessoas vão morrer (ou se salvar por um triz). Mas não eu, nem você. Nem ninguém: lágrimas não matam. As coisas vão mesmo esfriar, esvanecer e com o tempo serão lembranças, só. Um tempo de nos evitarmos. Um tempo para ouvir o apoio de amigos. Um tempo de nos esbarrarmos na rua – tempo de formalidades, aquele sem olhares cruzados, sem toques no braço do outro, sem sorrisos charmosos, sem abraços apertados. Em outros tempos, passamos por lá de mãos dadas, sonhando. O suspiro se foi e agora é o ar abafado nos fazendo suar frio num calor desses. Logo o tempo vira e a chuva virá, intensa mas sem ira. Sem pena irá lavar a mesma rua de água, depois lama e folhas e lixo e fezes. E o que um dia sentimos jazerá soterrado sob os pés de mil homens e mulheres.

O TEMPO QUE FOR

Descobri alegria. Alívio por saber que havia, oculta que fosse. Do fosso da alma uma brecha improvável rasgou e de lá da lama imunda o mundo se mostrou outro. Belo que seja. E, sujas, as mãos escavaram pedras negras de limo – as unhas rotas como cascos. A nesga de luz invade a treva, em desvantagem a vence. E vê-se a vida com os olhos de retinas virgens: o verde, o azul primário e o profundo, a terra. E o ar rebenta fresco no peito. Respira-se! Véus já não há. Vejo. Ouço. Sinto. Certezas não tenho. Sincero comigo digo: “Espera, Rodrigo. Confia. Ser apressado dissipa essa brisa pueril.” Difícil arte esta: crer apesar das lembranças. Mas, alegre por enquanto, aguardo o tempo que for pela boca em flor desabrochando um beijo. O teu.

O ELIXIR

No exílio de mim, a desmedida necessária, dose báquica do não-ser, ausência outra da vontade. Sucesso e glória ardem lá fora. O alcance é nada, um dardo cego, um gotejar dos cântaros do vão, diluída ambição no pingo do descaso. O vinho nobre do âmago transborda cálice obscuro a abrir-se-me, eclipse, sede do deslumbre insaciável. Ser duplo em êxtase, apaixonado, querer sem rumo ou predicado desfrute lépido, conhecimento avesso do mundo. Beber filosófico: no ingerir decanto o olhar curtido do encanto. Encontro o outro. Troco. Toco a intangível falta permanente. Abandono inconseqüente ao ser sozinho ser para vir-a-ser. Devir de mim mesmo. Dono do eu. Deus.

DESCOMPASSO

Moça, desculpa: não sei dançar. Meus pés são ágeis pra fugir, apenas. Que passa que não acerto o passo? E piso o pé – ui! – e piso em falso, só dou vexame no salão... Moça do céu, vixe, que as pernas chegam a dar nó! Se não há dança pra dançar só, como fazer pra te acompanhar? A orquestra pára e sigo em frente, escorrego e tombo – não há quem agüente. Atropelo mútuo no baile da vida. Estamos na pista e não temos par. A música chama para dançar, mas se vou, não danço, se danço, erro. A dança do amor, enfim, é ridícula. Bela. Mas ridícula.

LIVRO

Queria me ver livre das páginas amareladas e de todo cheiro de conhecimento novo em forma de pó. A embarcação de papel me leva ao mundo abstrato de imagens em ação, mundo leve de formas pesadas. É a concretude desdobrando-se em sonho, e o onírico esvaindo-se em letras; a multiplicidade latente de sentidos alterada em lápides esculpidas à mão, unilaterando todo um universo. Literatura. Lápis e caneta em punho destruindo em signos o insignificável. Fui moldado às folhas mil minha capa dura não se dobra, move-se apenas, o suficiente para abrir caminho a uma tênue cicatriz de idéias. Folhas falhas, filhas de um sentimento fútil de aprisionar palavras, antes: pensamentos, folias... Fui moldado e sou retangular. Reta angular. Tijolo. Pa-ra-le-le-pi-pe-da-da na vidraça humana.

ANAMORADA

Escrevo para a namorada que não tenho: a figura utópica platinada, a mulher dourada, adorada e lânguida; a alegria onírica e nublada, certeza frágil imprecisão. Poesia errante que consola um nada que há em mim. Efêmero é o ócio em que a concebo deusa. Infinita é a ponte que nos separa. Há um abismo, sei, um vale imenso, pomar de metáforas – algumas verdes, outras podres – e um cavalo alado para percorrê-lo, também. Escolhi a ponte. O porquê não sei... Remei com versos plúmbeos e naufraguei no mar da liberdade. Saciei a sede num copo d’água. Era fino vidro: não se quebrou, cortou-me o lábio. Caco de sangue coagulado fere mais do que cicatriza. Tudo isso são bobagens, frases ao ar, palavras aleatórias... Tal retórica de nada serve: brincadeira de mau gosto. Dou meu rosto à palmatória e a mão à poesia: façam deles o que quiserem. Há metafísica bastante para encher seringas descartáveis. A mulher que não tenho é a Arte, e seus cabelos são longos. Se oferece nua e seu corpo é amorfo. Um bal...

A FLOR

Além do muro a flor aflora bela porém oculta. Por uma porta ou janela procuro a flor, desejo tê-la. Mas não há fresta que ligue a cor ao olho, o lábio à pétala. Prefiro o pólen que inebrie o espinho que me corte, a ser sozinho na rua a vagar pela sorte. Jardim fugaz. Éden? quimera de bem-me-quer.

VÃO-SE OS ANÉIS

Duelo: o anel e o dedo, um ringue que a mão finge. Na palma, as linhas formam a renda do tempo. Rugas traçadas por quem? A mão humana que busca ou que adeus acena? Certeza que a escrita tangencia, palpite que lateja entre as falanges, escorre e nos escapa. Areia da dúvida. O gesto entre o aplauso e o tapa é o estalo de entregar o rosto estilo de empenhar o gosto, ter pulso e empurrar-se ao alto. Punho e unhas. Minhas armas. O resto, um dedo em riste. Se trágico ou ridículo, desdenha-se o risco. Se o braço forte é triste, importa é que lutar preciso. Celebro em luto o tato que persiste.

EST ANQUE

Converso comigo mesmo. Não sou maluco. Converso com versos. Não sou poeta: tento. Tanto tempo com tantos segui, sonhando sempre sonhando. Mas há o tempo em que sigo só, não sei porquê. Será que não consegui, talvez, um certo sossego de sonhar em paz? As barreiras são transparentes, quando se é cego. O futuro é tão presente, quando se é sonhador... O presente é tão passado, quando se é súbito. E o passado é tão presente, quando se sonha a dor. Sigo sozinho. Nenhuma mão suja a me acompanhar. Nenhuma palavra sórdida a sondar meu caminho, meus ideais. Carrego um sorriso travado, um choro contido. E a certeza sóbria de que seria contigo o meu prosseguir. Abandonaste a meta. Como a pedra, sólida, estanca n’água. O resto... mágoa.

CORPOS

Corpos. Na madrugada. Corpos. Entrelaçados. Corpos apenas corpos. Pulsando. Mentindo. Sendo. Superficialmente. Suficientemente corpos. Anticorpos do amor contra o vírus da solidão. Corpos. Sem nome, razão, sentimento. Corpos: carne, osso, sangue. E só. Corpos por um momento. Cinzas, terra, pó. Corpos: não-movimento do nó. Do nós. Rendamo-nos aos corpos, aos copos, às copas, às cópulas e às culpas. E vivamos em paz.

O CALAR DO CALOR

Não sente que a fala ausente implode na gente um tremor cardíaco, um calor contente, um ranger de dentes... qual um trem expresso trepidando os trilhos, o nascer de um filho, um falhar terrível de articulações, de entendimentos, de momentos, um... aumento de... pudor? Sente? Sinto. À mente eu minto, esquivo-me. Mas enfraqueço. E arquivo-me. Esqueço. Ah, a paixão é um pé e a palavra, um... um calo. Por isso, não falo. Calo.

O VERBO SER

Após uma vastidão passar durante um quase breve instante, suficiente para se considerar vida, acumular livros na estante, deixar a memória cheirando a mofo e o paladar curtido em bocas alheias e os olhos ofuscados pelos sonhos e as pernas fortes e bambas por percorrerem léguas rumo ao léu... a fraqueza domina o presente. Estão as folhas da palmeira sem perspectiva, mesmo habitando o céu. O sabor do vento é amargo e o sol esfola a clorofila de uma esperança desbotada. Em pleno meio-dia, em algum canto em evidência, acham-se homens em alvorada. Assim os artistas insistem em conjugar o verbo da existência.

A RODA

Deixe a curva sair pela tangente, deixe a faca perder o fio e o fio perder-se em nó. Deixe o gelo queimar de frio porque o cio que existe em nós se derrete de repente, assim como a cama transforma a gente em serpentes de pedra e água. Quero pedir trégua sempre que puder. Quero poder sempre te abraçar, porém sem precisar te querer. Eu quero ser-te apenas num flerte; flertar a ponto de petrificar o teu já farto ser; tentar-te a ponto de enfartar meu falo porque sabes que falo da boca pra fora. Dentro de você confundo os pronomes: fundo mim em ti, nós em eu, eu em você, e fonte em foz, gemido em voz, dois em mais, nós em um: até que me fundo dentro do teu fundo mais profundo: orgasmo de agora e dor. Que a tangente contorça a gente numa curva mais que perfeita: nós dois num círculo cósmico, rodando pela vida a fora. Repito-me: Quero pedir trégua sempre que puder. Quero poder sempre te abraçar, porém sem precisar te querer. Eu quero ser-te apenas num flerte; flertar a ponto de prontificar o...

VERBORRAGIA

Há um mistério bonito em ser o que sou e não saber o que sou. Tudo que vivo, tudo que ouço, tudo que vejo é um ir e vir de coisas, seres, experiências, é movimento. Não sei o que sou porque não sou o que, sou oco. Ser não é ser, mas estar sendo, ser estando. E serestando as pessoas som, porém sôo diferente, pois é preciso eu não ser eu para saber o que sou. Portanto, ser é estar: to be. O verbo em mutação conjuga a liberdade de expressão. Se no princípio já era o Verbo, o presente é o meio que no futuro será fim. Quero being; nunca serei-a. Nunca serei, nem nunca seremos: o Nunca será. _________________________________ Eu não pedi a pureza plácida digna dos deuses comuns. Eu me fiz. Eu me faço. Eu: Mefisto. Mefisto-me? Visto-me! Firo-me. O meu poder é flácido, digno dos dogmas, magma dos males. Eu sou a fatia de mim mesmo. Sou a faustia de mim mesmo. Sou a ênfase do eu, do eu fui em fase de eu sou do eu sou em face do que sempre fui. Eu sou o que sou e sou o que já fui, e sou ainda o q...

ELE E ELA

I. Eles Belo é ler-te os lábios sibilando longas linhas de um livro em português: lindos como as pétalas da flor, da última flor inculta e bela, deflorada pelo célebre Camões. Lanças uma sílaba no ar, calas no silêncio entre as falas, que não falas: silencias em voz alta, simulando beijos modelados pelas pálpebras da tua boca de quem lê. Olhos trocam flertes com as palavras, libertando-as das folhas que enclausuram a libido da leitura. E, lentamente, língua e letras se misturam numa cópula declamatória. II. Análise Belo é ler-te os lábios sibilando: lanças uma sílaba no ar, olhos trocam flertes com as palavras, libertando-as das folhas; calas no silêncio entre as longas linhas de um livro que enclausuram a libido das falas que não falas: silencias em português. Lindos como as pétalas da flor, da última flor em voz alta, simulando leitura. E, lentamente, beijos modelados pelas pálpebras, língua e letras se misturam numa inculta e bela deflorada cópula declamatória da tua boca de quem lê...

PURGATÓRIO DE PALAVRAS

Padeço. O mundo lógico impõe seu preço: palavras. Quantas vezes não morremos feridos por elas? Sílabas tônicas marcando o ritmo de nossos passos, cartas marcadas num jogo de métrica. Verso, agora verso o teu inverso, manejo a tática de reverter-te, tateio por entre as farpas paroxítonas, reviro arames fortes com voltas várias, padeço nas quatro linhas do mesmo cárcere. Seu servo eu sou. Escravo. Escavo uma saída com a mão direita, motor de idéias articuladas, grafando um túnel na escuridão do caos; e quanto mais penetro, mais me perco: o profundo é vão. Palavras: vocábulos lavrados no palato do inferno, vibratos vacilantes na garganta do diabo, magma purgando das entranhas da idéia, chagas de quem chora a incomunicabilidade .

REGISTRO

Efemeridade. E nós enfermos desta condição, preferindo o eterno e o etéreo, proferindo monumentos, não momentos, a trocar o mero pelo consagrado. Por mais que o artista insista em deter a obra, quem a tem é outrem: seu ouvirolhar é que o faz criador fugaz. O Teatro é por ser feito, e o ator é ostra-e-pérola, se um agora eclodir. Do caos desse presente, verbo ser mais-que-perfeito, se conjuga uma chama: cena. Registro qual? Há finalidade no paradoxo? Tão essencial ou desprezível quanto isto, é um eco do espetáculo quando não-saudoso e não-vivido. Afinal: a vida não dura mais do que ela própria.

MUDO

Eu mudo. Não calo aquilo que emudece em mim. Erram meus pés o colo do mundo, eram de barro e jorravam terra no chão. Hoje o que são? Pés à paisana, asfálticos, protegidos do negrume urbano. Que toque os pés a pele da natura lave-os de argila e eleve às copas o adubar-se do silêncio grávido de um grito: o de ser humano.

O QUE NÃO MORREU

O que não morreu está por aí a perambular a insistir e a nos convencer de que não morreu. O que não morreu então permanece mesmo se parece que já foi demais. O que não morreu a si contraria aos outros engana Um fogo sem chama um mato sem guia um morro sem pico um berro sem grito um quarto sem cama. O que não morreu edifica ressuscita. Assim somos nós e estamos aqui. Pois o que não morreu merece estar vivo.

TENTATIVA DE EXPLICAÇÃO

O que seria a loucura? O início ou o fim da aventura de querer viver sem ser louco? Seria ela um estilo de escrita, de idéias em movimento, que rege os poetas, os mares o vento? Ou seria, ainda, o alimento das mentes, árvores, montes, dos mortos de fome e dos fartos? Seria o concreto ou o abstrato? O certo ou o errado? O sul ou o norte? A vida ou a morte? Seria azar, seria sorte, ou vergonha, ou proeza, ser louco em sã consciência? Ou seria ridícula a beleza de tentar ser lúcido em vã demência? O que seria a loucura: má ou boa? Seria Deus a própria loucura? Ou seria a loucura Deus em pessoa? Ser louco é escrever um poema onde ser louco é o próprio tema (?) O homem é louco por natureza. E quem me achar louco ou insano por afirmar isso, com certeza está longe de ser humano.

TEATRO

Quem és tu que distante me tentas tanto quanto eu tento me livrar de louvar-te? Quem? Quero livrar-me de ti! Sem ti estou em ti. Estou só. Só em ti estou só e em mais ninguém. Somente te deténs em me ter solitário. Mas meu amor se derrete por quem me retém. E me tens. Portanto, amo-te. ______________________________ Estou atento, porém. (um tanto tonto também) Se te contento, está bem; se te destrato, contudo, desandas: sentimentos contidos ou em descontrole são trôpegos; evitar cultivá-los, no entanto, é mostrar-se hermético, antes, sem tato, sem ética. Tolo. Imaturo. ______________________________ A arte é sintética, sim. É a crosta dos fatos talhada no tempo, as gotas memênticas decantadas, a escritura filtrada da História, é o canto pertinente do cogito. Então nos resta calar. E escutar, assim, o rumor que brota dentro de nós, artistas, nós crianças crescidas da trupe humana. Nosso mundo é o Teatro (não o teatro-do-mundo, dos títeres românticos, nem o mundo do teatro, das vedetes t...