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LEMBRANÇA

Não use a memória para lembrar uma história que mal começou (ou começou mal) Tenha na lembrança sempre bem fresco esse tesouro incontável que é a vivência – isso que olhos e ouvidos testemunham e recortam do caos ou resgatam boiando no mar da incompreensão; o que foi arruinado pelo tempo, mas ruminado nas retinas; o que maturou de ecoar na consciência, o que fendeu a pele e a alma em cicatrizes (ah, a sabedoria da cicatriz: transmutação da dolorosa ferida em carimbo na bagagem de vida) Faça da memória crisálida da experiência, alce voo para além dessa perspectiva mesquinha do rancor e da mediocridade. Faça jus ao que já era, ao que jaz, e não faça da lembrança um criadouro de defuntos, deixe os fatos que morreram descansar em paz e lembre dos idos sem a vivacidade corrosiva da mágoa, mas apenas com a cor desbotada que devem ter. O sol voltará a brilhar só se antes de tudo você aprender a se amar.