VERBORRAGIA

Há um mistério bonito
em ser o que sou
e não saber o que sou.
Tudo que vivo, tudo que ouço, tudo que vejo
é um ir e vir de coisas, seres, experiências,
é movimento.
Não sei o que sou porque não sou o que,
sou oco.
Ser não é ser, mas estar
sendo, ser
estando.
E serestando as pessoas som,
porém sôo diferente,
pois é preciso eu não ser eu
para saber o que sou.
Portanto, ser é estar: to be.
O verbo em mutação conjuga a liberdade
de expressão.

Se no princípio já era o Verbo,
o presente é o meio
que no futuro será fim.
Quero being; nunca serei-a.

Nunca serei,
nem nunca seremos:
o Nunca será.

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Eu não pedi a pureza plácida
digna dos deuses comuns.
Eu me fiz.
Eu me faço.
Eu: Mefisto.
Mefisto-me?
Visto-me!
Firo-me.
O meu poder é flácido,
digno dos dogmas,
magma dos males.
Eu sou a fatia de mim mesmo.
Sou a faustia de mim mesmo.
Sou a ênfase do eu,
do eu fui em fase de eu sou
do eu sou em face do que sempre fui.
Eu sou o que sou e sou o que já fui,
e sou ainda o que ainda serei:
sou a somatória do ser presente
que soa em todos os tempos passados e futuros.
No meu tempo eu sou rei: mando eu.
E se quero ser rei, sou.
E se o quero, serei: eu posso.
Meu tempo passa e eu contemplo;
meu templo é oco e eu completo.
Do ser repleto eu sou o osso,
o fóssil, o fácil...
um poço.

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