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RIZOMAS

(contribuições para o espetáculo RIZOMA, do coreógrafo Renato Vieira) - 1 - Eu quero beijos e a incerteza de um futuro. O que está por vir, há – e isso basta. Do tremor houve as quedas, as quebras, os cacos. E com eles, os cortes. E as colagens, as curas. Mosaicos do que fomos, lembranças dançando na memória. Assim somos: rizomas, em fragmentos sendo, dilacerados na crueza da paixão. Nossa vida é esta eterna sinopse. Quero te escrever em mim, te emaranhar no meu destino. O amor é isto: um início sem fim. Um descaminho. Aqui nos achamos e nos perderemos. - 2 - Meu corpo é território. Percorro ágil o que é fugaz mas corre dentro de mim, vigor que pulsa na entranha, crueza, tensão, repulsa. O mapa da pele. Morde agora a minha carne e faz chover em mim. Percebe o arrepio que anuncia no poro, um precipício se desfaz. Geografia do corpo. Esquece o músculo. A minha música vem do osso e assim eu danço com meu sacro. O que retumba é ancestral, não é a derme em cicatriz que aflora em fibras falh...

POESIA BRUTA

Quando há tempo de pensar na vida é que a gente vive. Vejo a Natureza sendo e dela participo, entendo intimamente o mar se engastando no granito – estas pedras que já foram, com a África, a Pangeia. E percebo que as ilhas são ligadas pelo mais profundo vínculo talássico abissal. E que o vento nos perspassa do sopro que move as velas, os moinhos, as correntes, a História – até. Vento do onde, do quando, do além. Vento que erode e areja, que derruba e alça, que esculpe e arruína. Medo complacente do sublime. Esta vida em estado bruto sem o refinamento inútil, nem a lapidação do efêmero. Vida antiquíssima, ancestral, repetição imemorial do ser-estar e onde estamos encrustrados, jazida inesgotável de mobilidades. Pensar, então, sentir. Ser, assim, amar. No tempo de pensar a vida, redescobre-se o amor latente.

DA TRISTEZA

A tristeza é esse esvaziamento bem dentro da gente, um ruir que abre espaço pras coisas internas. E o olhar contempla, intentando assimilá-las e completar a gente do que vem de fora. Não quero ser um poeta da tristeza, mas entendê-la, revelá-la bela. Porque quando se está triste um senso novo se abre e percebe a oclusão do existir, a fugacidade intermitente, as cores desbotadas, ancestrais, de que tudo é feito.

A GURU

A guru profere uma palavra, uma sentença ela vaticina. De sua boca sai o destino de homens e mulheres. A guru é louca e a loucura fere. Mulher loquaz sem moderação de palavras. A guru fala muito, não sabe ser guru. Condena o logos, mas é dele escrava. Pobre guru, mãe da mediocridade, rainha solitária. Usa seu dom para conceber e dar à luz ideias estéreis. Desperdiça-se. Sim, a luz é necessária! É a luz que revela, não ela. Quem só olha para a luz, cega a si próprio e já não vê, alucina. O que a guru diz não vem da retina nem do coração, mas da mente. É imaginação. Nenhuma revelação, nenhum espelho possível para a guru. O mundo não comporta mais uma verdade. O Homem não suporta mais tantas certezas. A guru não percebe o evidente: a verdade é um aspecto. E rejeita a filosofia – pena. Não a rejeitasse saberia a verdade como um espectro socrático. Que a guru leia isso como quiser. A guru, aliás, gosta de leituras, mas não lê um livro sequer. Quer ser guru. E só. Sinto muito, gosto da guru,...

ESCONJURO

De lápis-lazúli é a tua lápide, ornamentando o teu destempero. Teu ócio jaz com a vaidade que corrói as horas com pompa vã. Nenhum afeto adere à superfície porosa do teu ego. Retira a tropa da arrogância do santo campo de batalha. Regride à tua infelicidade, regressa ao nada que és. Recua! Encontra a verdade que paira sobre ti: Repara a morte que te sorri. Se tudo passa, não há quem possa salvar-te, pois. Repousa em paz.

LEMBRANÇA

Não use a memória para lembrar uma história que mal começou (ou começou mal) Tenha na lembrança sempre bem fresco esse tesouro incontável que é a vivência – isso que olhos e ouvidos testemunham e recortam do caos ou resgatam boiando no mar da incompreensão; o que foi arruinado pelo tempo, mas ruminado nas retinas; o que maturou de ecoar na consciência, o que fendeu a pele e a alma em cicatrizes (ah, a sabedoria da cicatriz: transmutação da dolorosa ferida em carimbo na bagagem de vida) Faça da memória crisálida da experiência, alce voo para além dessa perspectiva mesquinha do rancor e da mediocridade. Faça jus ao que já era, ao que jaz, e não faça da lembrança um criadouro de defuntos, deixe os fatos que morreram descansar em paz e lembre dos idos sem a vivacidade corrosiva da mágoa, mas apenas com a cor desbotada que devem ter. O sol voltará a brilhar só se antes de tudo você aprender a se amar.