LEMBRANÇA

Não use a memória
para lembrar uma história
que mal começou
(ou começou mal)

Tenha na lembrança
sempre bem fresco
esse tesouro incontável
que é a vivência
– isso que olhos e ouvidos testemunham
e recortam do caos
ou resgatam boiando
no mar da incompreensão;
o que foi arruinado pelo tempo,
mas ruminado nas retinas;
o que maturou de ecoar na consciência,
o que fendeu a pele e a alma em cicatrizes
(ah, a sabedoria da cicatriz:
transmutação da dolorosa ferida
em carimbo na bagagem de vida)

Faça da memória crisálida da experiência,
alce voo
para além dessa perspectiva mesquinha
do rancor e da mediocridade.

Faça jus ao que já era, ao que jaz,
e não faça da lembrança um criadouro de defuntos,
deixe os fatos que morreram
descansar em paz
e lembre dos idos
sem a vivacidade corrosiva da mágoa,
mas apenas com a cor desbotada
que devem ter.

O sol voltará a brilhar
só se
antes de tudo você
aprender a se amar.

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