RIZOMAS

(contribuições para o espetáculo RIZOMA, do coreógrafo Renato Vieira)

- 1 -

Eu quero beijos
e a incerteza de um futuro.
O que está por vir, há
– e isso basta.
Do tremor houve as quedas,
as quebras, os cacos.
E com eles, os cortes.
E as colagens, as curas.
Mosaicos do que fomos,
lembranças dançando na memória.

Assim somos: rizomas,
em fragmentos sendo,
dilacerados
na crueza da paixão.

Nossa vida é esta eterna sinopse.
Quero te escrever em mim,
te emaranhar no meu destino.
O amor é isto: um início sem fim.
Um descaminho.
Aqui nos achamos e nos perderemos.


- 2 -

Meu corpo é território.

Percorro ágil o que é fugaz
mas corre dentro de mim,
vigor que pulsa na entranha,
crueza, tensão, repulsa.

O mapa da pele.

Morde agora a minha carne
e faz chover em mim.
Percebe o arrepio que anuncia
no poro, um precipício se desfaz.

Geografia do corpo.

Esquece o músculo.
A minha música vem do osso
e assim eu danço com meu sacro.
O que retumba é ancestral,
não é a derme em cicatriz
que aflora em fibras falhas,
mas o que vem de mim é fóssil,
é animal,
sou minha crosta, minha raiz.


-3-

Preciso de um vocabulário que compreenda
um encontro aguardado (e um inesperado)
o estar em cima de um palco...
Vocabulário universal do sorriso, da respiração profunda,
do espasmo, do orgasmo, do aplauso, do grito,
da gratidão, do abandono...
Algum que sussurre, ao invés de falar,
mas que diga, ao invés de omitir,
Um que tenha corrente sanguínea,
que pulse, lateje;
que escute, acima de tudo. Um vivo.
Um uivo
silencioso.
Que tenha olhos de olhar e de dizer,
e que seja sucinto e sábio, ousado.
Signo.
Sopro.

Vocabulário de imagens, de sons,
não só palavras.
Música.
Vocabulário que cante e conte.
Encantamento.
Dança.

Vôo.

Vazio.
Chhhh...


-4-

Tento.
Por tanto tempo com tantos segui,
sonhando sempre sonhando.
Mas há o tempo em que sigo só,
num desassossego.

Nenhuma mão suja
pra me acompanhar.
Carrego esse riso travado,
esse choro contido.
E a certeza ridícula
que seria contigo
o meu seguir.

Sigo sozinho.


- 5 -

Há um mistério bonito
em ser o que sou
e não saber o que sou.
Tudo que vivo, tudo que ouço, tudo que vejo
é um ir e vir de coisas, seres, experiências,
é movimento.
Ser não é ser, mas estar
sendo, ser
estando.
Ser é estar: to be.
O verbo em mutação conjuga a liberdade
de expressão.

Eu não pedi a pureza plácida
digna dos deuses.
Eu me fiz.
Eu me faço.
Sou fatia de mim mesmo.

Eu sou o que sou
e sou o que já fui,
e sou ainda o que serei.
Meu tempo passa e eu contemplo;
meu templo é oco e eu, completo.


-6 -

Purgatório de palavras

Padeço.
O mundo lógico impõe seu preço: palavras.
Quantas vezes não morremos feridos por elas?
Sílabas tônicas marcando o ritmo de nossos passos,
cartas marcadas num jogo de métrica. Verso,
agora verso o teu inverso, manejo
a tática de reverter-te, tateio
por entre as farpas paroxítonas, reviro
arames fortes com voltas várias, padeço
nas quatro linhas do mesmo cárcere. Seu servo
eu sou. Escravo.
Escavo
uma saída com a mão
direita, motor de idéias articuladas,
grafando um túnel na escuridão do caos;
e quanto mais penetro, mais me perco:
o profundo é vão.

Palavras:
vocábulos lavrados no palato do inferno,
vibratos vacilantes na garganta do diabo,
magma purgando das entranhas da ideia,
chagas de quem chora a incomunicabilidade.


- 7 -

De você eu tenho algo que ninguém me tira:
lembranças.

Violento o espaço do seu ser e sou
contigo.
Agora, dentro de mim você é
e será lembrança.

A memória não flui;
só o amor.


- 8 -

Descobri alegria.
Alívio por saber que havia,
oculta que fosse.
Do fosso da alma uma brecha
improvável rasgou
e de lá
da lama imunda
o mundo se mostrou outro.
Belo que seja.
E, sujas, as mãos escavaram pedras
negras de limo
– as unhas rotas como cascos.
A nesga de luz invade a treva,
em desvantagem a vence.
E vê-se a vida com os olhos
de retinas virgens: o verde,
o azul primário e o profundo,
a terra.
E o ar rebenta fresco no peito.
Respira-se!
Véus já não há. Vejo. Ouço. Sinto.
Certezas não tenho.
Sincero comigo digo:
“Espera, confia.
Ser apressado dissipa
essa brisa pueril.”
Difícil arte esta: crer
apesar das lembranças.
Mas, alegre por enquanto,
aguardo o tempo que for
pela boca em flor
desabrochando um beijo.
O teu.


- 9 -

Não me venha com jogos...
O amor é Eros, não Áries
é Vênus, não Marte.
O amor é servo, não mártir.

Aqui leões matam cervos
e devoram sem dó.
Porque se oferecer
em sacrifício
é não sofrer.
E só.


- 10 -

Desisto, então, e te deixo.
Sem despedidas,
sem último beijo.
O ar imóvel e abafado prediz
a chuva que virá.
Temporal.
E ruas inundarão, árvores vão cair,
a cidade será caos com o dilúvio.
Pessoas vão morrer (ou se salvar por um triz).
Mas não eu,
nem você.
Nem ninguém: lágrimas não matam.
As coisas vão mesmo esfriar, esvanecer
e com o tempo serão lembranças, só.
Um tempo de nos evitarmos.
Um tempo para ouvir o apoio de amigos.
Um tempo de nos esbarrarmos na rua
– tempo de formalidades, aquele sem olhares cruzados,
sem toques no braço do outro, sem sorrisos charmosos,
sem abraços apertados.
Em outros tempos, passamos por lá
de mãos dadas, sonhando.
O suspiro se foi e agora é o ar abafado
nos fazendo suar frio num calor desses.
Logo o tempo vira e a chuva virá,
intensa mas sem ira.
Sem pena irá lavar a mesma rua de água,
depois lama
e folhas e lixo e fezes.
E o que um dia sentimos jazerá
soterrado sob os pés
de mil homens e mulheres.


- 11 -

Quantas amarras
vão me impedir de ser seu?

Diz o teu sim
com a boca mais doce que beijei.
Vem comigo num abraço
cavalgar o lugar algum dos sonhos.

E dissipa a bruma da incompreensão
que nos divide da delícia oculta
do outro.

Agora fecha os olhos e conta.
Não há de ser nada, não há
ninguém contra o seu já.
Não põe na história esse fim.

Mil olhos nos veem, mas não sabem
o que se passa sob a pele do óbvio.

Vem comigo ser feliz,
lavar os dias com o frescor de estar vivo.
A vida, antes de você, apenas passava.
Hoje, ávida, floresce em meio às horas,
contente e incontida em si.

Vem tornar macio o correr do tempo:
mel e pétalas, a cútis do ócio,
derme que escorre
por entre os ossos do eterno.
Cio suave, ânsia de ser.

Vem, derrama esse ópio, essa alegria,
esse dopar-se sem torpor,
esse algo, esse tudo, esse amor.

Transborda e vem comigo
porque eu te amo,
te amo como ninguém.


- 12 -
(agradecimento aos bailarinos)

Soraya:
Sua beleza forte persiste
na retina de quem, pasmo,
assiste
tanta curva e precisão.
Em suma: linda,
tão linda, que te vejo
(ainda).

Fabiana:
Uma leveza que veio e se plasmou
altiva, no espaço.
De onde surge?!
Não se sabe: ela vem,
pintando-se em dança
por ela mesma, plena.
Élan e elegância.

Se as orquídeas fossem carnívoras,
talvez fossem mais belas.
Quem seduzido ousaria
tocar a pétala macia,
e deixar ser devorado?
A flor singela e sanguínea
tem seiva e corpo instigante:
Lavínia.

En medio del crepitar del fuego
celebra un gitano.
No hay ni ayer ni mañana
sólo la noche,
la luna
y aquel fuego sin fin.
Mis ojos centellean
mientras baila Joaquim.

Do templo em Delfos, na Grécia Antiga, ouviu-se o oráculo:
“Um deus tomou não pedra, mas carne,
para esculpir um homem;
em seu torso e músculos torneados
a escrita da luz não brilha, assombra.
E nesse corpo-mármore, um sopro habita,
o espaço move, o tempo para e a vida grita.”
Pela primeira vez, Apolo olhara no espelho.

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