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DÁDIVA

Conceber é também ser um pouco Deus. Requer um zelo sábio, desapegado, de entrega, que só os plenos sabem. As mães são plenas. Levitam como plumas mesmo nas tormentas, deságuam lágrimas por nada e ainda assim não secam. As mães são esses seres fortes e suaves, provedoras abundantes, fontes de afeto e consolo. Só nos recônditos das mães a gente encontra isso: o sossego mágico da gênese, silêncio grávido de caos que é a vida em seu começo. Ouçam! Uma mulher agora é mãe. Nela há mistério e comunhão, frutos de um encontro. Mulher sagrada. Abençoada. Dentro dela uma vida se segrega, sangue do seu sangue, sopro no seu ventre. E, assim, viver já não é como antes...

AHORA

Apesar de mim, um passo e outro adiante a pisar assim a incerteza dos vãos. Apesar do fim, um início confiante. A pesar um sim, no deserto de nãos. Vou embora porque sim. Vou, embora haja um fim. Vou lá fora, hoje, assim. Voo agora para mim. Posso um passo, posso outro. Fora, passo Dentro, um poço. Um fica Um passa Um piso Um passo Um salto Um poço Um voo Um pássaro. No vão eu vou. Deserto adiante. Um centro incerto. O sim e o não. Em mim um outro assim assaz Passada a hora Agora Fim.

CONFISSÃO

A hora morta em que as luzes silenciam é quando gritam pavores bem dentro de mim. Assim convivo com o temido e calo aos poucos o faminto que me habita, o ser voraz que move a vida. Qualquer delírio assombra, Mesmo o mais ínfimo. Estou náufrago de esperanças, estupefato em apatias. E a vida passa. Porém, no fundo íntimo do abismo, além do ego e daquilo que turva, fere e deforma, existe um farto que grita não de temor, mas de gana. Uma centelha que clama por incendiar-se. Esse desejo da alma, esse saber-se infinito espera inquieto e me devora. Essa latência do grito é desde sempre, é sempre agora é um atraso que não tem hora. Este sou eu, pleno, inconformado por parecer o fraco que chora.

MOVIMENTO Nº 7

Cansaço. Nado contra, nada faço. Nada fácil. Desassossego que persegue, que persiste, desencontro em trânsito, tráfego fatal, declínio, desastre, clausura. Arte da inércia. Cláusula de desistência. Inépcia de ser. Des-ser. Não ser. Descer ao Hades, ao fundo do poço. Aniquilar-se. Anular-se assim. Não-sim. Fim do túnel. Findo percurso. Finitude. The end. Nada. Que nada! Recurso. Remendo das Moiras. De novo sendo. Nascendo das cinzas, Fênix. Tânatos derrotado. Apologia apolínea: luz, beleza. Apogeu. No topo, eu. (Allegro - ma non troppo) Totem. Zênite. Zen. Almejo. Alço. Alcanço. Só eu comigo. Só sem cansaço. Só sigo. Consigo. Go. Gol! :

TREVO

Poucas coisas, raras. De todas (cantos, risos, prantos, copos, pratos, taras...) uma, e somente uma, é graça e sorte e leve e forte. Somente uma, coisa rara, no meu mundo é você.

RIZOMA

Eu quero beijos e a incerteza de um futuro. O que está por vir, há – e isso basta. Do tremor houve as quedas, as quebras, os cacos. E com eles, cortes. E colagens, curas. Mosaicos do que fôramos, lembranças dançando na memória. Assim somos: rizomas, em fragmentos sendo, dilacerados, loucos, santos nas sendas da paixão. Nossa vida é esta eterna sinopse. Quero escrever-te em mim, emaranhar-te em meu destino. O amor é isto: um início sem fim. Um descaminho. Aqui nos achamos e nos perderemos.

TERRA

I. Esta terra que tudo dá é a terra santa que me mantém. A terra estéril da seca é a mesma que no cio da colheita semeia o ciclo das estações, fecundando sonhos e esperanças, germinando choros, frustrações. Eu sou filho da Mãe Terra, e muito mamo em suas tetas sujas do barro que alimenta vermes e da areia que move ampulhetas; mamas rijas como as pedras em que tropeço, e que jorra o leite escuro de suas glândulas mais íntimas. Terra ferida e marcada por cicatrizes geográficas, que recicla a erosão em paisagens verdejantes, e faz purgar a vida que perdura tempos, águas, lógicas. Terra que eu piso e me dá diamantes. – Ó, deusa Gaia, virgem, gaja, gueixa... mãe de todos os seres e não-seres, aqui soluço uma guaia, mistura de mágoa e queixa: em teu seio vou estar até quando me comeres! II. É em Minas que vivo a terra plenamente. Em Minas estou repleto de terra. O árido e o fértil são pólos, extremos que temos em nós e na terra. Terra: complemento do Céu, e não seu oposto. Nada vem da terra ...